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sábado, 21 de setembro de 2024

Sugestão - Curso Europeu sobre Segundas Vítimas (em Português)


Gostaria de te fazer a sugestão de frequentares o Curso Europeu sobre Segundas Vítimas (em Português)

A Segunda Vítima é definida como "Qualquer profissional de saúde que esteja direta ou indiretamente envolvido num evento adverso, ou num incidente imprevisto não intencional, ou numa situação em que um doente sofreu dano, e que se torna uma vítima na medida em que sofre um impacto negativo decorrente dessa experiência." (Vanhaech et al., 2022)

O curso vai permitir-te conhecer melhor esta temática, ter acesso a estudos de caso, exemplos práticos e conhecer as melhores estratégias de intervenção e apoio às "segundas vitimas".

O curso decorre on-line e é de acesso gratuito e está disponível através deste link: https://course.cost-ernst.eu/courses/curso-europeu-sobre-segundas-vitimas-pt/

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
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Fernando Barroso
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domingo, 19 de maio de 2024

Como Usar o Notifica - 19/05/2024


Um incidente de SEGURANÇA DO DOENTE que não é notificado “não existiu”.

É muito importante que todos os incidentes em que estamos envolvidos, direta ou indiretamente, sejam notificados na plataforma notifica

Sem essa notificação, sem esse conhecimento, a informação relativa ao incidente, os seus fatores contribuintes, e toda a aprendizagem que poderia ser feita não vai acontecer.

Notificar é aprender com os erros passados.

Notificar é aumentar a segurança do doente e contribuir para a qualidade em saúde dos nossos serviços e instituições.

Este é o link para o notifica. https://notifica.dgs.min-saude.pt/

Copia e cola no desktop do teu PC ou no teu telemóvel. É muito simples e fácil notificar.

O que achas desta estratégia?

Tens recebido respostas às tuas notificações?

Sabes quem é o GESTOR DE RISCO CLÍNICO da tua instituição?

Deixa os teus comentários abaixo.

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Fernando Barroso
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sábado, 16 de dezembro de 2023

O acesso do doente ao sistema de saúde é uma questão de segurança do doente


Esta semana uma cidadã ucraniana dirigiu-se à consulta externa para tentar agendar marcar uma consulta médica, ela  tinha pelo menos três questões de saúde que precisava de ver resolvidas

Esta cidadão já está em Portugal há cerca de 2 anos. Ela tem número do SNS mas não consegue acesso ao sistema.


Expliquei-lhe que um utente não pode dirigir-se à consulta externa de um hospital e simplesmente agendar uma consulta.

O acesso às consultas de especialidade no hospital ocorre essencialmente por referência do serviço de urgência ou por referência de um centro de saúde com base num pedido de consulta feito pelo médico de família. Expliquei isso o melhor que consegui.


Ela respondeu de forma muito calma o que já tinha feito até ali. 

Explicou que o apoio que tem tido em Portugal tem sido essencialmente conseguido no setor privado.

Explicou que já foi várias vezes ao seu Centro de Saúde mas que atualmente os profissionais - ela não disse quais os profissionais - que num primeiro momento até comunicavam com ela em inglês deixaram de comunicar e simplesmente dizem que não sabem falar inglês.


Esta pessoa estava a ficar desesperada, precisa de medicamentos por causa da sua situação de saúde, precisa de resolver outros assuntos e não consegue acesso ao sistema.


Por mais que eu tentasse pensar numa forma de ajudar, a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe que contactasse a linha de saúde do SNS (808242424).

Há uma opção para as pessoas que só falam inglês e que tentasse para que através daí houvesse a devida referenciação para o sistema com base nas suas necessidades.


Ela ainda me perguntou se poderia ir ao serviço de urgência?

Expliquei que provavelmente caso o fizesse, ser-lhe-ia atribuída uma pulseira com uma cor azul ou verde e mesmo assim correria o risco de quando conseguisse chegar à fala com o médico, deste também dizer que o assunto não era para um serviço de urgência e que teria de dirigir-se ao centro de saúde.

Mesmo sem a resposta que queria, a pessoa simplesmente agradeceu, tomou nota do número para onde deveria ligar e foi embora.


Fiquei a pensar como é que esta pessoa não consegue o acesso que pretende tendo todo o direito de o conseguir.


Somos muito rápidos a dizer que conseguimos falar outras línguas mas depois, na prática, não queremos colocar isso em prática. Existem formas de ultrapassar esta dificuldade quando o doente fala outra língua. Existem sistemas de apoio de tradução que podem e devem ser utilizados.


Mas muito provavelmente O que está por trás desta dificuldade de acesso não é isto

É o nosso julgamento do outro. É nós acharmos que temos um poder que queremos exercer e condicionar aquilo que é a resposta possível.

Decidimos quando não podemos decidir e decidimos errado. Não podemos impedir o acesso se ele é perfeitamente legal - como é este aparentemente o caso.

O facto de se tratar de uma pessoa de outra nacionalidade não nos deve fazer criar barreiras onde elas não devem existir.


Todos aqueles que trabalham na área da saúde percebem perfeitamente que há todos os dias tentativas de "dar volta" ao sistema. Não é isto que está aqui em causa. Trata-se apenas de uma pessoa que quer cuidados de saúde e que tem direito de os receber.


O facto de falar uma outra língua não deve ser impeditivo. É um desafio, é verdade, mas quando estamos a impedir o acesso estamos a impedir a prestação de cuidados de saúde que certamente a pessoa necessita e com isso estamos a pôr a segurança desta pessoa em risco.


Enquanto profissionais de saúde não temos o direito de o fazer. Pelo contrário, temos que fazer tudo para promover a segurança do doente, e isso implica permitir o acesso ao sistema, com maior ou menor dificuldade.

A responsabilidade dos profissionais na área da saúde é cumprir a lei, é cumprir as regras das boas práticas, é atuarmos de forma ética, é sermos atenciosos com os nossos utentes, porque é para isso que ali estamos.


UM DIA SERÁS TU O DOENTE!

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Fernando Barroso

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Uma Série De Falhas: A História De Um Familiar | #SD437

Na primeira reunião do Patient Safety Management Network (PSMN) de 2022, tivemos o privilégio de ouvir a experiência chocante de um familiar enlutado, que nos lembrou porque é importante falar sobre a experiência do Doente e sobre “Segurança do Doente”.

 

Claire Cox, uma das fundadoras do PSMN, convidou Susan (nome fictício para proteger a sua confidencialidade) para compartilhar connosco as causas da morte prematura do seu familiar e a experiência ruim e vergonhosa quando ela e o seu médico de família começaram a fazer perguntas. Isso deu início a uma discussão valiosa e perspicaz sobre como os doentes são atendidos quando as coisas dão errado e sobre a honestidade e a culpa, envolvimento do doente e da família na tomada de decisões quando os doentes estão em estado terminal e como precisamos garantir que os sistemas de notificação de incidentes incorporem boas práticas informadas pela experiência da vida real dos doentes e profissionais.

 

A HISTÓRIA

Dois anos antes do familiar de Susan morrer, ele realizou exames para uma condição não relacionada que não precisava de tratamento. Estes exames revelaram, no entanto, um pequeno tumor que foi registrado e identificado como um alerta vermelho. O médico que analisou o exame estava com 16 horas de trabalho no seu turno. Nenhuma ação foi desencadeada pelo Hospital e nem o doente nem o seu médico foram alertados sobre o tumor e a necessidade de tratamento imediato. Dezoito meses depois, o familiar de Susan apresentou sintomas no consultório do seu médico e foi encaminhado para avaliação urgente. Ele foi diagnosticado com cancro e um tratamento com quimioterapia e radioterapia foi iniciado, embora tenha sido posteriormente reconhecido que não seria possível sobreviver ao tumor e que o doente estava num estado terminal.

 

O Hospital só percebeu que nenhuma ação tinha sido tomada após o exame quando os registros médicos do familiar foram solicitados após a sua morte, cerca de dois anos depois. O processo clinico do doente foi solicitado quando o médico de família levantou preocupações; o médico não conseguia entender porque o doente se tinha deteriorado tão rapidamente. Isto foi um verdadeiro choque para Susan, pois em nenhum momento durante o intenso tratamento de quimioterapia e radioterapia do seu familiar foi compartilhado com ela que tinha sido perdida uma oportunidade de diagnosticar e iniciar o tratamento mais cedo.

 

As principais preocupações de Susan eram:

O diagnóstico incorreto e a falha em agir no primeiro exame. O Hospital reconheceu que o tumor, se tratado quando foi encontrado pela primeira vez, era passível de sobrevivência.

Falha na honestidade e na partilha de informações. Os clínicos nunca partilharam com ela os achados do primeiro exame até à investigação, mesmo durante todas as intervenções e discussões sobre seu prognóstico e tratamento.

Uma falha em compartilhar como o seu familiar estava doente. Consequentemente, o seu familiar não foi informado de que a sua condição era terminal. Foi-lhe, assim, negado a oportunidade de tomar decisões sobre o seu tratamento. Como a Susan disse, ele não tinha que suportar o tratamento. Ele poderia ter escolhido viver os seus meses restantes sem a dor e as consequências da quimioterapia e radioterapia se soubesse que nunca sobreviveria aos seus tumores.

A incapacidade de ouvir os desejos do seu familiar na partilha de informações e a forma francamente brutal como a sua doença terminal lhe foi comunicada na presença de uma família jovem e de uma enfermaria repleta de doentes e seus familiares.

A radioterapia foi realizada sem equipamento de proteção deixando o seu familiar gravemente queimado e quando o seu familiar morreu 10 dias depois e a Susan perguntou se isso o matou, ela foi informada 'sim'.

O processo de investigação foi imperfeito, cheio de garantias que não foram cumpridas, tais como honrar o compromisso de fornecer informações e apoio a Susan. O relatório da investigação foi enviado sem aviso prévio pelo correio sem qualquer explicação e Susan nunca mais teve notícias do investigador. O médico de família de Susan prestou muito apoio, ajudando-a a interpretar o relatório e orientando-a sobre as suas opções.

A falha em aprender. Um dos principais motivos da Susan em acompanhar o pedido do seu médico de família dos registros médicos do seu familiar era que deveria haver aprendizagem pelo erro para evitar danos a outras pessoas. Susan afirmou vigorosamente que entende perfeitamente que os erros são cometidos, mas não consegue entender como a equipa não revê regularmente o trabalho do dia, identificando onde é necessário melhorar e tomar ações informadas sobre isso. Susan não está convencida de que qualquer aprendizagem tenha sido feita e, portanto, as mesmas circunstâncias que levaram à morte prematura do seu familiar podem acontecer novamente. Isso é compreensivelmente muito angustiante

Uma falha em usar os recursos de forma eficaz. Ela acredita que o seu familiar, se tivesse escolha, não concordaria com o tratamento desnecessário. Susan estava muito consciente dos custos do tratamento, recursos que ela disse que poderiam ter sido melhor utilizados em outras pessoas, pois não tinham valor para o seu familiar, pois ele estava num estado terminal (mesmo que isso não tenha sido compartilhado com a família até depois de sua morte).

 

Os gestores de risco clinico ficaram claramente chocados com a história de Susan e a falta de suporte e comunicação com Susan e o seu familiar. Eles discutiram como os seus papéis são importantes para garantir que a perceção do doente e da família seja considerada nas investigações e forneça respostas para as perguntas que as famílias precisam saber. Discutiram o valor e a importância do envolvimento dos doentes e familiares e que não deveria ser necessário fazer denúncias formais; assim que uma organização estiver ciente de falhas graves, ela deve assumir a liderança da investigação para descobrir o que está errado, porquê e como evitar que isso aconteça novamente.

 

Os gestores de risco clinico refletiram sobre a experiência de Susan e falaram sobre a melhor forma de compartilhar informações com os familiares, a sensibilidade e o apoio necessários.

 

Houve genuína compaixão e tristeza por Susan e uma enorme expressão de gratidão pela sua coragem em compartilhar a sua experiência com todos nós. Todos devemos assumir o compromisso de ouvir, interagir e aprender com os doentes e seus familiares.


Fonte: A series of failures: a relative's story. Publicado pela Patient Safety Learning em 20/01/2022


O Blog: Segurança do Doente completa hoje (04/02/2022) 11 anos de existência. 
Obrigado a todos os que contribuem para a causa da Segurança do Doente

Fernando Barroso

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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A Organização do espaço de trabalho é indispensável à Segurança do Doente | #SD435

Em qualquer local onde se prestam cuidados de saúde, a forma como organizamos o espaço de trabalho é muito importante. Essa organização determina a eficiência com que conseguimos prestar os cuidados de saúde, mas contribui também para a segurança do doente.

Qualquer profissional, ao prestar cuidados num determinado local deve:

  • Possuir um conhecimento profundo do espaço físico envolvente e familiarizar-se com todos os equipamentos e materiais;
  • Conhecer o mobiliário hospitalar disponível e as suas características;
  • Conhecer os equipamentos médicos existentes, a sua forma de funcionamento e quaisquer outras características especificas, quem e como contactar em caso de avaria e qual o plano de manutenção;
  • Saber quais os dispositivos médicos existentes (material clínico). As suas quantidades, localização e forma de reposição.

A Equipa que trabalha nesse local deve treinar de forma recorrente as situações mais complexas que podem ocorrer nesse local de trabalho específico, antecipando e resolvendo quaisquer dificuldades que consigam identificar.

Devem realizar simulações relacionadas com as atividades mais complexas, e sempre que adequado, devem realizar reuniões de Debriefing após qualquer evento (positivo ou negativo) para recolher a melhor aprendizagem e construir opções para situações futuras.

Todas estas atividades, ajudam a desenvolver a Cultura de Segurança da Equipa, e com isso a prestar cuidados de qualidade e em segurança.

Fernando Barroso

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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O Enfermeiro Gestor influencia a notificação de incidentes de Segurança do Doente? | #SD433

 - O Enfermeiro Gestor influencia a notificação de incidentes de Segurança do Doente?

 A questão (aqui simplificada) chegou por email. Esta foi a minha resposta:

Definitivamente, o Enfermeiro/a Gestor tem um enorme impacto na cultura de segurança do seu Serviço/Unidade.

Com a sua postura ele/a tanto pode enviar uma mensagem de abertura e de aprendizagem com o erro, ou pelo contrário, uma posição de repressão e culpabilização individual pelos incidentes de segurança do doente que ocorram.
Na minha perspetiva isso ocorre (a parte negativa) porque estes Enfermeiros/as Gestores identificam os incidentes de segurança do doente, em parte, como algo que pode ser também sua responsabilidade individual (não desenvolveram os protocolos ou políticas adequadas; não diligenciaram para ter os recursos humanos e materiais de que precisam; estudaram muito pouco ou mesmo nada o conceito de segurança do doente, etc.).
Edward Deming, na sua regra dos 85/15, afirma que 85% dos erros em qualquer desempenho são erros de processo ou de causa comum e que somente cerca de 15% serão atribuídos a causas específicas, incluindo erro do trabalhador. 
Este princípio é (surpreendentemente) ainda pouco disseminado, compreendido ou mesmo aceite. E isso tem repercussões no estilo de gestão e consequentemente na promoção da notificação de incidentes como forma de aprendizagem com o erro, de melhoria continua da qualidade e como verdadeira fonte de melhoria do sistema em que todos trabalhamos e cuidamos do doente.
No final, é a Segurança do Doente que sofre.

Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!

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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Um Abandono na Consulta Externa | #SD426

Hoje, uma doente com mais de 80 anos chegou ao serviço de consulta externa trazida pelos bombeiros. A doente chegou transportada numa cadeira de rodas do lar onde se encontra. Uma cadeira enferrujada, sem apoio de pés, e sem apoio de cabeça.

Uma doente, com várias comorbilidades, obesa, e com aparente falta de ar. Foi colocado oxigénio à doente.

O bombeiro não trazia qualquer documento de identificação da doente. Tinha apenas um documento do lar onde a senhora se encontra, com o seu nome a posologia da medicação que toma e o contacto do lar.

- “É sempre assim neste lar”, afirmou.

 

O Bombeiro dirigiu-se a receção e informou que ia deixar a senhora na sala de espera.

Nenhum outro acompanhante estava com a doente

 

Foi a Assistente Técnica que impediu o bombeiro de se ir embora.

- Não se deixa uma doente incapaz sozinha.

 

No sistema informático não existia qualquer consulta prevista para esta doente

Foi contactado o lar, não sabiam o que a doente vinha fazer.

 

Após alguns minutos foi possível descobrir que a doente tinha afinal agendado para hoje a colheita de sangue para análises

O que fazer?

 

A doente, aparentemente desorientada, apenas pedia um apoio para a cabeça e que o leite fosse “fresquinho”. Simplesmente não sabia onde estava.

 

Foi dada a indicação ao bombeiro para levar a senhora de volta ao lar. Sem acompanhante era impossível conseguir que a doente ficasse na central de colheitas para fazer análises. Sozinha não iria conseguir e não estava ninguém com ela. Não iria fazer as análises de que provavelmente muito necessita.

 

Por muito que os hospitais queiram, em situações como esta, a segurança do doente começa muito antes do doente chegar à instituição.


Não consigo entender este jogo do empurra, do horrível "isso não é comigo" ou do "não quero saber, não é minha responsabilidade".


Mas afinal o que é que estamos aqui a fazer?

 

Sei que muitos dirão que esta história é comum, até “habitual

Mas eu não consigo esquecer e não consigo deixar de me sentir impotente.

Telefonei à filha da doente, contei o que se tinha passado e pedi-lhe que se interessasse pela sua mãe e que a acompanhasse nestas vindas ao hospital.


Um dia seremos nós sentados naquela cadeira.


Fernando Barroso

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sábado, 21 de agosto de 2021

Um Doente Sírio, uma Obra, Comunicação Inadequada e Segurança do Doente

 

Há coisas que parecem não estar ligadas, mas quando falamos de comunicação percebemos que as ligações existem e que a segurança do doente pode ser colocada em causa.

1 Caso

Por estes dias foi atendido na consulta um doente sírio. Uma criança acompanhada pelo seu pai. Estas pessoas apenas falam árabe. Uma família Síria, refugiada em Portugal, que só fala a sua língua de origem, e que tem um filho com um problema de saúde complexo.

Como profissionais de saúde temos a obrigação de fazer um esforço acrescido para compreender estas situações particulares.

De nada serve entrar em conflito, falar em português de forma acelerada, gesticular. É tudo o que não se deve fazer.

Pelo contrário, com calma, utilizando um tradutor online, frases curtas, e empatia, foi possível ultrapassar o desentendimento e programar uma nova consulta para decisão terapêutica. Até lá vamos conseguir ter presente um tradutor que nos vai ajudar a comunicar melhor com a família

Para quem não sabe, existe um serviço de tradução que pode ser solicitado. Trata-se da Linha de Tradução Telefónica do ACM (Alto Comissariado para as Migrações).

Deixo o link para obteres mais informações: https://www.acm.gov.pt/pt/-/servico-de-traducao-telefonica

 

2 Caso

Esta semana foi necessário dar continuidade é uma obra. Quem já teve obras num serviço com este a decorrer sabe como isso pode ser stressante.

O Empreiteiro pediu para, num dia específico, poder entrar no serviço às 7h00m (antes da hora de abertura normal). A portaria e o Serviço de Segurança foram informados.

Mas no dia previsto, à hora prevista, ninguém foi abrir a porta do serviço para que os trabalhadores pudessem entrar e assim executar mais uma parte importante da obra em curso, sem a presença de doentes.

Como acabaram por entrar mais tarde, os trabalhos prolongaram-se para além da hora prevista para a chegada dos primeiros doentes. Apenas com a boa vontade de todos foi possível prestar cuidados em segurança, ao mesmo tempo que uma obra importante avança.

A comunicação prévia foi feita, no entanto ela falhou, não ouve proatividade de quem estava presente à 7h, e poucos perceberam que uma obra que aparentemente nada tem a ver com a prestação de cuidados pode afinal influenciar e muito a segurança dos doentes.

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Estes são apenas dois exemplos de como uma comunicação inadequada interfere de forma importante na segurança do doente.

A forma e o meio que utilizamos para comunicar, podem ser interpretados de múltiplas formas pelo recetor da mensagem. Assim, esclarecer e pedir confirmação da mensagem nunca é demais.

Também fica evidente que a cultura de segurança de todos os envolvidos está longe de ser a ideal.

Num serviço de saúde todas as atividades têm direta ou indiretamente, impacto na prestação de cuidados e por isso são importantes para a segurança do doente, dos profissionais, e da própria instituição.

Se esta realidade não é percebida por todos, isso acaba por colocar em risco todo um trabalho de planeamento e de gestão do risco.

É preciso empenho, formação e mais e melhor comunicação entre todos. É importante que todos saibam a importância das suas ações para a cultura de segurança da instituição e o seu impacto na segurança do doente.

No final é sempre o doente que sofre as consequências.

Fernando Barroso

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domingo, 25 de julho de 2021

A Penalização de Enfermeiros por falhas na Segurança do Doente | #SD421

Foram duas as notícias (uma nos EUA e outra em Portugal) que esta semana me chamaram a atenção sobre a forma como um enfermeiro(a) pode ser penalizado quando ocorrem falhas na segurança do doente.


A primeira notícia chega dos EUA e tinha como titulo: Enfermeira da Califórnia entrega licença após morte do doente.

A peça informativa referia que “Uma enfermeira registrada na Califórnia foi condenada a entregar a sua licença de enfermagem após se ter confessado culpada em 14 de julho de abuso de idosos (…).

Emily Beth Jones, 40, cuidadora da Vitas Healthcare, sediada em Miami, estava responsável por um residente numa casa de repouso com sede em Riverside, Califórnia, em 2017. Ela supostamente não registrou a descoberta de uma úlcera aberta numa residente de 69 anos.

A úlcera agravou-se o que obrigou a residente a uma cirurgia de emergência no pé direito, que, entretanto, tinha ficado infetado e gangrenado. Após a cirurgia, a saúde da residente continuou a piorar e ela acabou por morrer.

Os privilégios de enfermeira da Sra. Jones foram suspensos em 12 de junho de 2020, de acordo com o conselho estadual de enfermagem.

A Sra. Jones admitiu a acusação de crime e foi condenada a 24 meses de liberdade condicional. A Sra. Jones também deve cumprir 90 dias num programa de trabalho comunitário e entregar a sua licença de enfermagem até 16 de agosto. Ela também será condenada a pagar uma indeminização à família da vitima (a noticia original aqui).

 

A segunda notícia é nacional (Leiria) e tinha como título: Pena de multa para profissional de enfermagem do hospital de Leiria após morte de utente

A notícia refere que o “Caso remonta a maio de 2020 quando um utente esperou mais de seis horas para ser atendido no Serviço de Urgência Geral do Hospital de Santo André, em Leiria.

Um profissional de enfermagem do hospital de Leiria viu-lhe ser aplicada uma pena de multa na sequência de um processo disciplinar após a morte de um utente nas urgências daquela unidade de saúde, divulgou o Centro Hospitalar de Leiria.

A morte ocorreu em 28 de maio de 2020, alegadamente depois de o utente, de 42 anos, ter esperado seis horas para ser atendido no Serviço de Urgência Geral do Hospital de Santo André, em Leiria, que integra o Centro Hospitalar de Leiria (CHL).

(…), o CHL refere que o seu Conselho de Administração instaurou um processo de inquérito onde concluiu “pela existência de prova indiciária no sentido da eventual responsabilização, designadamente disciplinar, de dois profissionais de saúde intervenientes na assistência ao utente (Um profissional de Enfermagem e um profissional médico)”.

Na sequência desta morte, e após comunicação do Hospital de Santo André, o Ministério Público abriu um inquérito, em 28 de maio de 2020, que investiga “factos suscetíveis de configurar, em abstrato, a prática de um crime de homicídio por negligência” (a notícia original aqui).

 

PARA REFLETIR

Nestes dois casos fica claro que a forma como prestamos cuidados aos doentes é (e bem) cada vez mais objeto de escrutínio), mas mais importante ainda, devem servir para nos fazer refletir (profissionais de primeira linha e Gestores) sobre a forma como nos organizamos para garantir a segurança do doente e dos profissionais.

  • Como monitorizamos a integridade da pele e valorizamos a identificação precoce de ulceras por pressão?
  • Como aplicamos os protocolos de triagem, a retriagem e a comunicação entre diferentes profissionais? 

Em ambos os casos, muito mais haverá certamente por detrás de cada uma destas notícias. Muito se pode debater e tentar justificar. Mas no final, dois doentes sofreram o dano maior – a morte- e muito provavelmente algo poderia ter sido feito para que tal fosse evitado.

A Segurança do doente não é um conceito abstrato. É um conjunto de medidas reais, adaptadas a cada contexto para proteção do doente e dos profissionais de saúde.

Fechar os olhos a esta realidade será campo fértil para os tribunais e para o dano de mais doentes.

Fernando Barroso

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Fadiga do Alarme | #SD409

 


A “fadiga do alarme”, que pode levar à dessensibilização e ameaçar a segurança do doente, é particularmente preocupante em ambientes de cuidados intensivos.

Esta revisão sistemática concluiu que a “fadiga do alarme” pode ter consequências graves para os doentes e para a equipa de enfermagem.

Os estudos incluídos relataram que os enfermeiros consideraram os alarmes pesados, muito frequentes, interferindo no cuidado prestado ao doente e resultando em desconfiança no sistema de alarme.

Essas descobertas apontam para a necessidade de uma estratégia para gestão de alarmes e medição da fadiga do alarme.

Artigo original - Impact of Alarm Fatigue on the Work of Nurses in an Intensive Care Environment—A Systematic Review

Fernando Barroso

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Webinar: Abordagem à Segunda Vítima de Evento Adverso | #SD403

Sempre que ocorre um evento adverso (um incidente de segurança do doente que causa dano ao doente) estão envolvidos profissionais de saúde, que também sofrem com esse incidente. São as "segundas vítimas" desses incidentes.

Para ver, e aprender, com atenção.


Fernando Barroso

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domingo, 6 de dezembro de 2020

A Influência do Enfermeiro Gestor na Segurança do Doente | #SD402

 


Participei recentemente num webinar dirigido a alunos de uma pós-graduação em Gestão de Serviços de Saúde, tendo por base a temática da Segurança do Doente. Para além dos aspetos básicos do papel do Enfermeiro Gestor na garantia da Segurança dos Doentes e dos Profissionais, entendi ser fundamental explorar alguns princípios que um Enfermeiro Gestor deve considerar, quer no momento atual de prestação de cuidados a Doentes COVID, quer ao longo do seu percurso como gestor.

 

Considero que além das necessárias capacidades de gestão de recursos humanos e materiais, compete ao Enfermeiro Gestor contribuir para uma comunicação efetiva dentro da sua equipa.

Podia ter referido muitos outros aspetos, mas foram estes os 4 princípios para os quais chamei a atenção:

 

O Enfermeiro Gestor deve partilhar o máximo de informação possível;

Apenas com uma partilha adequada do fluxo de informação será possível fazer crescer nos elementos da equipa um sentimento de inclusão e de partilha da “verdade” a cada momento.

O momento adequado para partilha a informação também é importante. Isso pode fazer a diferença entre a angustia ou a motivação.

 

O Enfermeiro Gestor deve interpretar os sinais da equipa;

Há momentos no dia-a-dia de uma equipa em que a tensão é tão evidente como um nevoeiro espeço numa manhã de inverno. Compete ao Enfermeiro gestor intervir para desanuviar essa tenção. Seja através de um maior apoio pontual, seja através de palavras de incentivo, mas mais importante, através da sua presença, empatia e liderança.

Mas também existem momentos em que a equipa (ou algum dos seus elementos) apenas quer ser deixada em paz. Há que saber discernir.

 

O Enfermeiro Gestor deve encontrar válvulas de escape para a pressão:

Considero que nos dias que vivemos, há poucas ferramentas para um enfermeiro gestor mimar a sua equipa (e uso a palavra no sentido literal de “tratar com mimo, acarinhar”). Mas os Enfermeiros estão cansados de falsas promessas, pelo que as opções já não são muitas. Mas restam algumas:

O enfermeiro gestor tem de fazer uma gestão do horário da sua equipa com justiça e equidade, respeitando a lei em vigor. Todos os enfermeiros, quando recebem o seu horário de trabalho, avaliam “aquilo que lhes calhou”, mas também o que foi dado aos outros colegas. A comparação está sempre presente.

O enfermeiro gestor tem de saber identificar e gerir os conflitos internos da equipa. Tal como um arbitro num campo de futebol, se não existir uma intervenção adequada, o jogo pode tornar-se muito feio, e todos ficam a perder.

O enfermeiro gestor tem de conversar para entender; como Enfermeiro Gestor sou bombardeado com informação a todo o momento. Mas como diz o ditado, “quem conta um conto, acrescenta um ponto”. É competência do Enfermeiro Gestor saber ouvir e conversar para entender a posição de todas as partes envolvidas. Nem sempre essa é uma possibilidade real, mas não devemos decidir sem pelo menos tentar obter o máximo de informação possível de todas as partes envolvidas. Só assim seremos justos na decisão.

 

O Enfermeiro Gestor deve ser um exemplo, dia após dia.

De pouco serve pedir a alguém que faça aquilo que eu não estou disposto a fazer.

Se algum elemento da equipa chega frequentemente atrasado à passagem de turno, mas o Enfermeiro Gestor também lá não está, que mensagem estamos a transmitir?

Se eu passo o tempo fora do serviço ou no café, que legitimidade tenho para pedir mais presença e empenho da minha equipa.

O exemplo é a melhor ferramenta que um Gestor pode usar para formatar a sua equipa para um desempenho de excelência.

Dificilmente um Enfermeiro Gestor pode ser excelente se a sua equipa não o acompanhar. Estamos ligados uns aos outros.


Fernando Barroso

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