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domingo, 7 de março de 2021

Eu não estou na linha da frente, mas… | #SD412


Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias vou cuidar de doentes.

Eu não estou na linha da frente, mas garanto o funcionamento da Urgência de Oftalmologia e de Otorrinolaringologia.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias avalio gravidas e respondo aos seus medos e ansiedades.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias estou na pequena cirurgia a apoiar as injeções intravitreas para que o doente não fique cego.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias colaboro na substituição de uma nefrostomia, um cateter suprapúbico ou um duplo J, para que estes cateteres não calcifiquem e o doente não sofra.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias administro medicação ou faço uma colheita de sangue.

Eu não estou na linha da frente, mas já perdi a conta às zaragatoas que colhi a profissionais do meu hospital.

Eu não estou na linha da frente, mas continuo a fazer pensos, colaborar em biopsias aspirativas ou a remover agrafos de feridas operatórias.

Eu não estou na linha da frente, mas continuo a colaborar na extração de sinais suspeitos na dermatologia. Ouço o Doente: - “Tenho medo que seja maligno Sr. Enfermeiro…”. Não sei o que responder, mas ofereço a minha compaixão e esperança. O Doente compreende.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias envio peças anatómicas para a Anatomia Patológica, e o período de espera pelo resultado começa…

Eu não estou na linha da frente, mas descontamino todo o espaço antes do doente seguinte, para que ele e EU estejamos seguros.

Eu não estou na linha da frente, mas aceito colaborar numa biopsia renal. O doente está internado e não pode esperar, e acima de tudo não merece esperar.

Eu não estou na linha da frente, mas esforço-me para dar esperança ao doente que está comigo naquele momento. Ele é a razão de eu estar ali.

Eu não estou na linha da frente, mas tive de aprender e recordar tudo o que há para fazer, mesmo estando afastado há anos da prática e não ser este o meu posto de trabalho habitual.

Eu não estou na linha da frente, mas reaprendi a fazer os registos no SClínico para que a informação do doente não se perca.

Eu não estou na linha da frente, mas já vacinei centenas de Profissionais de saúde, respondendo às suas dúvidas e receios.

Eu não estou na linha da frente, mas colaboro na avaliação dos Equipamentos de Proteção Individual que os Fornecedores nos querem vender para garantir que os mesmos estão em conformidade com as normas em vigor e para que os profissionais da linha da frente estejam seguros.

Eu não estou na linha da frente, mas colaboro em pareceres sobre Controlo de Infeção para que os que estão na linha da frente tenham a melhor evidência possível. Uns compreendem e aceitam, outros simplesmente ignoram ou desprezam.

Eu não estou na linha da frente, mas colaboro para que os corpos que se acumulam na morgue tenham cuidados dignos e que os agentes funerários compreendam a complexidade do momento que vivemos.

Eu não estou na linha da frente, mas reorganizei um Rouparia e garanti que todos têm um fato, uma farda limpa, todos os dias.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias faço a gestão do meu serviço, ao mesmo tempo que presto cuidados em 4 áreas diferentes do meu serviço, garanto o pedido de material de sutura e penso e reponho material nas diferentes áreas.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias ouço um “obrigado” sincero do doente que acabo de cuidar. Não publicamos fotografias todos equipados dos pés à cabeça nem fazemos vídeos de dança no Tik-Tok, mas muitos doentes têm voltado e reconhecem-nos pelo nome. Estão gratos pelo cuidado técnico que tem recebido, mas acima de tudo, pelo carinho e pela esperança.

Eu não estou na linha da frente, mas todos os dias faço de confidente e ouvinte do meu colega enfermeiro, do assistente operacional, do assistente técnico, do técnico superior de diagnóstico e terapêutica, do médico. Todos ficamos preocupados, choramos e rimos em conjunto. Todos os que estão comigo nesta linha que não é a “da frente”, todos sofremos o mesmo impacto.

Sem eles, eu não era capaz de fazer nada.

Eu não estou na linha da frente, mas sinto que estou no centro de tudo, e ao meu lado  - ombro com ombro - todos os profissionais que fazem acontecer, e bem lá no meio, o Doente.

É para a Segurança do Doente que trabalho, é por ele que eu e muitos outros vamos lá, todos os dias, para uma linha que não é “a da frente”, mas que também salva vidas e dá esperança.

Amanhã, voltarei para essa linha.

Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!

#segurancadodoente

Este texto representa o que EU, a minha Equipa e muitos outros Profissionais com quem trabalho, fazemos no dia-a-dia (e não estará completa).

A minha gratidão para todos os profissionais do Serviço de Consultas Externas, Farmácia, GCLCIPRA, GIARC, Aprovisionamento, Rouparia, Morgue, Informática, Esterilização, Limpeza, Instalações e Equipamentos, Gestores Hospitalares, Seguranças, Alimentação e para todos os outros que eu possa estar a esquecer. 

Obrigado!

Fernando Barroso

sábado, 30 de janeiro de 2021

Vídeo OMS - Estou vacinado, o que acontece a seguir? | #SD406

- Existe uma boa resposta imunitária na 2ª semana após a 1ª dose da vacina, mas é pouco tempo após a 2ª dose que existe um aumento significativo da imunidade.
- Durante quanto tempo?
- Isso ainda não sabemos. 


Fernando Barroso

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UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Desabafo - Portugal não aguenta | #SD401


Por mais que tente, não consigo entender tudo aquilo que observo.

Alguém me interpela e “pede” mais fatos de circulação, que os que tem diariamente no serviço não chegam... Diz que - “agora somos chamados mais vezes perto dos doentes e que depois tem de tomar banho… e vestir outro fato

Não resisto a comentar que compreendo que, quando passas 2, 3 ou 4 horas metido num EPI plástico que ficas todo transpirado, mas não compreendo como é que intervenções de 10, 15 ou 20 minutos obriguem ao mesmo procedimento.

Não estamos a tratar ébola.

Não temos fatos de circulação para esse volume de medo, e que é importante que todos estudem o assunto (COVID) e saibam o que devem fazer.

Portugal não aguenta este nível de ignorância.

 

Alguém pede uma bata impermeável com mangas + luvas + barrete (já tinha uma P2).

Apenas quer ir a um dos computadores de um gabinete de consulta (não COVID) consultar algo no SClínico.

Esteve lá menos de 5 minutos a usar o PC.

O EPI foi depois todo para o lixo.

Portugal não tem dinheiro para este nível de medo.

 

Uma Assistente de lar de uma “Santa Casa” (com casos COVID) entra no serviço de consultas externas com um utente para uma consulta.

Aproveita uns segundos em que o Segurança não estava na porta e entrou sem máscara (nem ela nem o utente).

O Segurança apercebesse e alerta. A Sra. é colocada (com o utente) no exterior (são só alguns metros) e repreendida. Vamos buscar umas máscaras para lhe entregar.

Ao regressar perto da mesma já ela colocou uma máscara ao utente e coloca uma nela própria. Sempre teve as máscaras consigo. Apenas optou por não as colocar.

Portugal não aguenta com este nível de iliteracia (?) falta de formação (?) falta de civismo (?) desprezo pelos outros(?)


E isto foi apenas uma pequena parte do dia…


 Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

domingo, 8 de novembro de 2020

Avaliação do Risco para Abertura de um Serviço COVID | #SD400


Ao considerar a abertura de um serviço ou a transformação de um serviço existente para Doentes (confirmados ou suspeitos) com o novo Sars-CoV-2, deve ser efetuada uma “avaliação do risco” que considere aspetos importantes no âmbito do controlo de infeção, e antecipe entre outras, as seguintes “fonte de risco”:

1.    FONTE DO RISCO: Definição de circuitos
  • Circuito limpo e circuito sujo/contaminado
  • Circuito de doentes suspeitos/confirmados – ponto de entrada e saída (definido de acordo com estratégia institucional;
  • Circuito dos profissionais acesso a vestiários/balneários; Lotação máxima de profissionais em simultâneo;
  • Circuito para sujos (resíduos hospitalares e roupa contaminada) – pontos de recolhas;
  • Circuito para alimentação; rouparia; aprovisionamento e farmácia – ponto de entrega para os profissionais destes serviços com restrição de acesso ao interior;
  • Considerar marcação no corredor central (pavimento) de zona suja/zona limpa – esta definição é facilitadora das boas práticas.

2.    FONTE DO RISCO: Limpeza

  • Avaliar as necessidades para o serviço (nº de horas contratadas);
  • Número de profissionais dedicados;
  • Considerar as opções - limpeza assegurada pelas Assistentes Operacionais do próprio serviço ou limpeza assegurada pela empresa de limpeza;
  • Material/equipamento de apoio de acordo com “Procedimento Interno Para Limpeza De Áreas Com Doente Covid-19” (construir procedimento interno).

3.    FONTE DO RISCO: Espaços para pausa/alimentação

  • Definir local;
  • Definir nº de profissionais em simultâneo;
  • Acondicionamento de lancheiras dos profissionais na unidade.

4.    FONTE DO RISCO: Formação dos profissionais

  • Colocação / Remoção de EPI`s – Disponibilizar prática simulada, cartazes, vídeos tutoriais;
  • Tipologia de máscaras;
  • Procedimentos para limpeza de áreas com doente COVID-19.

5.    FONTE DO RISCO: Fardamento dos profissionais

  • Número de fardamento necessário; Tamanho; Circuito de entrega.

6.    FONTE DO RISCO: Equipamento e Material Clínico

  • Material em quantidade adequada;
  • Tipologia de material específico para tratamento do Doente COVID;
  • EPI’s (nº e tipologia).


Estas são apenas algumas das “fontes do risco” a considerar, que necessariamente variam de serviço para serviço ou de instituição para instituição.

Em resumo, recomenda-se a realização atempada de uma avaliação do risco que permita uma identificação das fontes do risco, a sua hierarquização e a implementação de medidas de tratamento do risco que garantam a segurança dos doentes permitindo aos profissionais prepararem-se de uma forma mais segura para o exercício das suas atividades. 


Fernando Barroso
UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

domingo, 13 de setembro de 2020

A Descaracterização dos Profissionais de Saúde | #SD396


A Pandemia de COVID-19 tem sido usada como desculpa para muitas coisas.

Uma delas é a descaracterização dos profissionais.

Não digo isto de ânimo leve!

Não só a necessária utilização de Equipamentos de Proteção individual (EPI’s) veio “esconder” o rosto e as fardas dos profissionais, como muitos profissionais passaram a usar apenas fatos de circulação.


Esta opção tem, obviamente, inúmeros aspectos positivos:

Permite aos profissionais vestir um fato limpo no início de cada turno (o que nem sempre acontecia anteriormente), assim como a troca de fato durante o mesmo turno caso tal se revele necessário (e é certamente depois de várias horas vestido com EPI completo).

A utilização de fatos de circulação dá ao trabalhador uma sensação de segurança acrescida, e esse é um aspecto que não deve ser desprezado.


Mas a utilização massiva de fatos de circulação em detrimento do fardamento oficial de cada Instituição também tem aspectos negativos:

A tal sensação de segurança pode ser enganadora se o profissional não compreender que o fundamental é cumprir com as medidas de precaução básicas e especificas em controlo de infecção.

Um fato de circulação não é uma armadura impenetrável.

Um fato de circulação só deveria ser usado em situações especificas de alto risco de contaminação, em Serviços Cirúrgicos (Blocos) ou Unidades Especiais (p.ex: Técnicas de Gastro), e não deve ser utilizado fora dos serviços onde esses cuidados são prestados.

Os fatos de circulação não devem ser descartados como lixo, mas sim colocados para reprocessamento em locais predefinidos para que possam ser lavados e reintroduzidos novamente no circuito.

Os fatos de circulação (e já agora, também as fardas e Batas) não devem ser usados no momento de sair da instituição para voltar a casa (e continua a ver-se, mesmo nestes dias, esta prática que todos sabem estar errada).

Os fatos de circulação são um recurso finito. Os profissionais devem respeitar a sua utilização.

Os fatos de circulação de uma instituição (que os comprou e colocou a uso para os seus Profissionais) não devem ser “desviados” para outras instituições de saúde.

Mas o pior de tudo, pelo menos para mim é a descaracterização dos profissionais.

Um fato de circulação (igual a quase todos os outros) em conjunto com uma máscara, uma touca e por vezes óculos (sejam os pessoais ou outros) transforma rostos e pessoas conhecidos em perfeitos estranhos.

A maioria dos profissionais deixou até de usar o seu cartão de identificação. Porquê?

Se os doentes já ficam confusos com as fardas normais, imaginem agora quando à sua volta, todos são iguais.

Observo profissionais que, por detrás deste anonimato recém-criado, adotam práticas de verdadeiro desprezo por quem está há sua volta. Não pode ser.

O COVID-19 não é desculpa para este tipo de comportamento.

Estamos perto das comemorações do DIA MUNDIAL DA SEGURANÇA DO DOENTE, este ano dedicado à Segurança dos Profissionais de Saúde.

A Segurança dos Profissionais é fundamental, como já tive oportunidade de expressar, mas os Profissionais de Saúde também tem de reconhecer o esforço que as instituições fazem para lhes proporcionar EPI’s e outro equipamento (fatos de circulação incluídos), respeitando a sua utilização de forma criteriosa e acima de tudo respeitando os Doentes que cuidamos e com quem nos cruzamos nos corredores das nossas instituições.

Todos temos uma identidade própria, mas numa instituição não nos representamos apenas a nós próprios. Representamos a Instituição e um Grupo Profissional.

É em busca desta identidade que os Doentes olham para nós, nos procuram e nos reconhecem.

Não sejas anónimo.

Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

sábado, 5 de setembro de 2020

Sem Segurança dos Profissionais não há Segurança dos Doentes | #SD395


Escreve José Saramago no seu romance "Ensaio sobre a cegueira":

Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara


E eu acrescento, Se puderes ajudar, não deixes de o fazer.

Vivemos todos um momento crítico, em que sentimos que colocamos a nossa própria vida em risco sempre que saímos de casa, mas há alguns de nós que o fazem com empenho redobrado. E não, não somos heróis.

Esta semana fui ajudar de uma forma diferente.
Em 3 horas fiz zaragatoas a 47 profissionais (naso e oro faringe) para pesquisa de COVID-19.

Quando retiras o equipamento de protecção individual é que percebes que está encharcado. A tua túnica pode torcer-se. Sentes dor, tens sede e só pensas em descansar um pouco.
Mas nunca se perde o sorriso, mesmo debaixo da máscara.

Perceber o esforço daqueles que diariamente se submetem a este tipo de condições só está ao alcance de alguns. Muitos nunca vão entender.


Sem Segurança dos Profissionais não há Segurança dos Doentes.


Que todos possamos entender quando devemos ajudar, deixando de lado o medo irracional e o desconhecimento. Se puderes ajuda, seja de que forma for. Estuda, informa-te e prepara-te. Não sedas ao medo.
É a segurança do todos que está em causa.

Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

domingo, 30 de agosto de 2020

A Gestão do Coronavírus Representa o maior Fracasso das Políticas Científicas da nossa geração | #SD394


O editor da prestigiada revista científicaThe Lancet” (Richard Horton) contribui com a sua visão crítica sobre a gestão da epidemia.

Ele afirma que "Nesta ocasião, os especialistas e cientistas deram como certo alguns fatos que mais tarde se mostraram não verdadeiros"

Nós sabíamos que isto iria acontecer.


Em 1994, Laurie Garrett publicou um livro clarividente, um aviso. “The Coming Plague” (A próxima praga). A sua conclusão foi: "Enquanto a raça humana luta entre si, o jogo fica do lado dos micróbios, que ganham terreno. Eles são os nossos predadores e vencerão se nós, Homo sapiens, não aprendermos a viver numa aldeia global que deixe poucas oportunidades para os micróbios."

 Se você acha que esta forma de se expressar é hiperbólica, considere uma análise mais sóbria realizada pelo Instituto de Medicina dos Estados Unidos em 2004. As lições retiradas do surto de Sars de 2003 foram avaliadas citando Goethe: “Saber não é suficiente; devemos aplicar. Querer não é suficiente, devemos agir.” Esta análise concluía ainda que "a contenção rápida da Sars é um sucesso de saúde pública, mas também um aviso ... se a Sars acontecer novamente ... os sistemas de saúde em todo o mundo estarão sob extrema pressão ... a vigilância contínua é de vital importância".

O mundo ignorou os avisos.

Ian Boyd, que foi assessor científico do governo britânico entre 2012 e 2019, lembrou recentemente que “uma simulação realizada para um cenário de uma pandemia de gripe em que cerca de 200.000 pessoas morriam, deixou-me em frangalhos”.

- Isso ajudou algum governo a agir?

Aprendemos o que funcionaria se tivéssemos que aplicá-lo, mas as lições aprendidas não foram necessariamente colocadas em prática.”


As políticas de austeridade colocaram fim à ambição e ao compromisso dos governos de proteger os seus cidadãos. O objectivo político foi o de reduzir o papel do Estado, que passou a ter menor capacidade de intervenção: o resultado foi deixar o país gravemente ferido. Quaisquer que sejam as razões pelas quais as lições do Sars e as simulações de gripe não foram aplicadas, o fato é que –resumiu Ian Boyd - "a nossa preparação era deficiente".


A resposta global ao Sars-CoV-2 é o maior fracasso da política científica de nossa geração. Os sinais estavam lá. Hendraem 1994, Nipah em1998, Sars em 2003, Mers em 2012 e Ebola em 2014; todas estas grandes epidemias que afectaram os humanos foram causadas por vírus que nascem em animais e se propagam para os humanos. O Covid-19 é causado por uma nova variante do vírus que causou a Sars.


Ninguém está surpreendido por as bandeiras vermelhas terem passado despercebidas. Poucos de nós temos a experiência de uma pandemia e todos somos parcialmente culpados por termos ignorado informações que não reflectem a nossa própria experiência do mundo. As catástrofes revelam a fraqueza da memória humana. Como se pode planear perante um evento aleatório e estranho, especialmente quando o sacrifício exigido é tão intenso?


Como argumenta a sismóloga Lucy Jones no seu livro de 2018, The Big Ones, "Os riscos naturais são inevitáveis, mas o desastre não".


O primeiro dever de um governo é proteger seus cidadãos. 

Os riscos de uma pandemia podem ser medidos e quantificados. Como Garrett e o Instituto de Medicina demonstraram, os perigos de uma nova epidemia eram conhecidos e compreendidos desde o surgimento do HIV na década de 1980. Desde então, pelo menos 75 milhões de pessoas foram infectadas com esse vírus, e morreram 32 milhões de pessoas.

Pode não se ter espalhado pelo planeta à velocidade do Sars-CoV-2, mas a sua longa sombra deveria ter colocado os governos em alerta para que fossem tomadas as medidas necessárias em face do surto de um novo vírus.


Durante uma crise, é compreensível que tanto os cidadãos quanto os políticos se tornem especialistas. Mas, nesta ocasião, os especialistas, os cientistas que criaram modelos e simularam futuros possíveis, assumiram como certas algumas realidades que mais tarde se mostraram não verdadeiras.

O Reino Unido presumiu que esta pandemia se pareceria muito com a gripe. O vírus da gripe não é benigno, o número de pessoas que morrem de gripe a cada ano no Reino Unido varia muito, com um pico recente de 28.330 mortes em 2014-2015, mas a gripe não é o Covid-19.

 

Em contraste, a China foi marcada pela sua experiência com a Sars.

Quando o governo chinês percebeu que existia um novo vírus em circulação, as autoridades chinesas não recomendaram lavar as mãos, tossir mais educadamente ou ter cuidado onde os lenços de papel eram descartados. Eles colocaram cidades inteiras em quarentena e fecharam a economia. Como me disse um ex-secretário de saúde inglês, os nossos cientistas sofreram um ataque de "viés cognitivo" em face do risco médio representado pela gripe.

 

Talvez por isso, o comité mais importante do governo inglês nesta crise, o recém-criado grupo consultivo de ameaças de vírus respiratórios (Nrevtag), chegou a uma conclusão a 21 de Fevereiro de 2020, três semanas após a Organização Mundial de Saúde ter declarado esta uma crise de emergência de saúde pública de âmbito internacional: não se opôs à avaliação de risco "moderado" para a saúde pública da população do Reino Unido.

Eles cometeram um grande erro.

O fracasso em não elevar o nível de risco resultou num atraso mortal na preparação do sistema de saúde para a onda de infecções que estava a chegar.


É doloroso reler os apelos desesperados por ajuda do pessoal da linha de frente do sistema de saúde público do Reino Unido;

“O esgotamento da equipe de enfermagem nunca foi tão alto e muitas de nossas heróicas enfermeiras estão à beira de um colapso nervoso.”

“É doentio ver isto acontecer e que, de alguma forma, o país acredite que é correto deixar alguns trabalhadores adoecerem, serem ventilados e morrerem”.

“Sinto-me como um soldado que vai para a guerra desarmado.”

“É um suicídio.”

“Estou farto de ser chamado de herói porque, se tivesse escolha, não viria trabalhar.”


A disponibilidade e o acesso a equipamentos de protecção individual falharam terrivelmente para muitos profissionais de saúde, médicos e enfermeiras. Alguns gestores hospitalares fizeram o planeamento correto. Mas muitos não foram capazes de fornecer o equipamento de protecção necessário às suas equipas na linha de frente.


Em cada conferência de imprensa, o porta-voz do governo inglês inclui a mesma frase: "Temos seguido os conselhos médicos e científicos".

A frase é boa. Mas é apenas parcialmente verdade.

Os políticos sabiam que o sistema de saúde não estava preparado. Eles sabiam que não havia capacidade suficiente para prestar cuidados intensivos perante um aumento de casos e necessidades como os actuais.

Um médico escreveu-me a dizer o seguinte: "Parece que ninguém quer aprender com a tragédia humana da Itália, China, Espanha ... É muito triste ... Os médicos e cientistas não conseguiram aprender uns com os outros."


Estamos a viver no 'Antropoceno', uma era em que a actividade humana impõe a sua influência sobre o meio ambiente.

O conceito de antropoceno evoca uma certa ideia da omnipotência humana. Mas o Covid-19 revela a surpreendente fragilidade de nossas sociedades. Ele expôs a nossa incapacidade de cooperar, coordenar e agir em conjunto. Talvez não sejamos capazes de controlar o reino do natural de forma alguma. Podemos não ter a capacidade de controle que antes pensávamos ter.


Se o Covid-19 for capaz de imbuir os seres humanos com algum grau de humildade, é possível que, afinal, acabemos por mostrando alguma recetividade às lições desta pandemia mortal. Ou talvez voltemos a mergulhar na nossa cultura de complacência e excepcionalidade até a próxima praga chegar. O que acontecerá certamente.

E a história recente mostra-nos isso, e mais cedo do que tarde.


Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

domingo, 5 de julho de 2020

O que fazer a seguir? | #SD390

Photo by Nick Fewings on Unsplash

O que fazer a seguir?

Temos por vezes a ideia preconcebida de que temos pouco controlo sobre o que fazer a seguir. Cada vez mais tenho a certeza de que não é assim.

O momento actual pede ainda mais o nosso foco na segurança do Doente e dos profissionais e temos de estabelecer uma prioridade relativamente aos próximos passos.

Uma forma de responder à pergunta inicial é com aquilo que é mais importante no momento, e isso varia com cada um de nós.

 

O meu Serviço (Consultas Externas) continua em mudança com a necessidade de nos reinventarmos relativamente ao que estávamos habituados a fazer.

Nas últimas semanas voltámos a fazer formação em serviço (3 sessões para Enfermeiros, Assistentes Operacionais e Assistentes Técnicos) e explorámos um tema pouco habitual – Atendimento ao Publico.

Com a pressão das medidas de prevenção COVID, a forma como recebemos e falamos com os nossos doentes é cada vez mais importante.

É natural que surjam duvidas e conflitos à medida que implementamos (e mudamos) as regras de funcionamento.

O nosso processo de acolhimento teve de ser reorientado, eu diria mesmo, reinventado. E para que o processo seja bem implementado, o componente humano tem de estar reparado e pronto a responder.

Também implementamos um novo inquérito epidemiológico a todos os doentes à entrada no Serviço. Fazê-lo com o mínimo de perturbação no fluxo de acolhimento do doente, e com o mínimo de tempo de espera é um desafio.

Esta semana irei questionar os doentes sobre a sua perceção sobre o novo processo.

- Compreende o objectivo do inquérito?

- Há alguma sugestão que queira fazer?

São perguntas simples, mas logo vos contarei o resultado.


E tu, o que vais fazer a seguir para a Segurança do Doente?


Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

sábado, 27 de junho de 2020

Como Marcar a Transição da Equipa para o pós-COVID | #SD389

Photo by Perry Grone on Unsplash


Eu sei que é no mínimo polémico falar em "pós-COVID", mas as nossas vidas tem de continuar e devemos o mais rapidamente possível aceitar o "novo normal".

Foi com base neste princípio que, no meu Serviço, realizámos uma reunião/formação de Equipa em que o tema foram os sentimentos e experiências vividas durante o período da pandemia.

Para contextualizar um pouco importa explicar que, de um momento para o outro, a equipa de enfermagem do meu Serviço foi dividida em 3 grupos:
  • As colegas que foram seleccionadas para irem reforçar outros serviços do Centro Hospitalar;
  • As colegas que ficaram no Serviço e asseguraram a continuidade da actividade do Serviço;
  • As colegas que estavam/ficaram ausentes por diversos motivos.
Não é fácil descrever os sentimentos que todos vivenciamos durante este período; Incerteza do que poderíamos esperar. Medo de que nos afectasse directamente ou à nossa família. Coragem e resiliência para fazer "o que tinha de ser feito"

Estes foram apenas alguns dos sentimentos que todos sentimos e com os quais tivemos de aprender a viver.

A nossa reunião foi realizada na primeira semana a seguir a um marco que tínhamos estabelecido em comum. Que todas as colegas que iam sair do Serviço voltassem ao nosso serviço novamente. Esta foi uma promessa cumprida e só assim poderíamos continuar em frente e reforçar o nosso sentimento de equipa e de pertença ao Serviço.

A reunião foi muito simples, mas carregada de significado e partilha. De forma sincera todos partilhámos os nossos sentimentos, experiências (boas e más) e as estratégias desenvolvidas de apoio mútuo.

Ao proporcionar este momento conseguimos estabelecer um marco. Passou a existir um "antes" e um "depois", num período muito difícil para todos.

É claro que todos percebemos que o COVID-19 não desapareceu, e que temos de desenvolver estratégias de prevenção interna que garantam a Segurança do Doente e a Segurança dos Profissionais, mas com esta experiência, conseguimos "arrumar" um período extremamente desafiante para todos, e ter esperança no futuro.

Obrigado Equipa. Vocês são todas fantásticas!
Vamos continuar.

Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

quinta-feira, 11 de junho de 2020

COVID-19: Equipa e Fatores Humanos para melhorar a Segurança do Doente

A rápida transmissão do COVID-19 resultou numa pandemia internacional, com a taxa de mortalidade acumulada prevista para aumentar ainda mais nos próximos meses. A maioria das mortes até maio de 2020 tem sido altamente concentrada em determinadas áreas geográficas, colocando uma tremenda pressão nos sistemas de saúde locais e nas equipas de saúde.

Dar atenção à nossa condição humana no contexto mais amplo da segurança do doente pode aumentar a consciência sobre como as fraquezas humanas afectam os profissionais de saúde e as equipas ao ponto de poderem degradar a segurança e a qualidade do atendimento e aumentar o risco para os doentes com COVID-19 e para as equipas que cuidam deles.

Estas fraquezas são exacerbadas por fadiga e esgotamento, falta de confiança da equipa, falta de tempo, doenças e baixa segurança psicológica, cada uma das quais pode resultar num desempenho reduzido e contribuir para falhas como diagnósticos incorrectos e eventos adversos.

É aqui que uma equipa forte e a consciência sobre os factores humanos que nos condicionam pode fazer a diferença.

OS PROBLEMAS DE SEGURANÇA

Fadiga e burnout

A fadiga e a exaustão entre os profissionais de saúde e a equipa são predominantes durante o curso normal da prestação de cuidados, e ainda mais em tempos de crise em que a sobrecarga cognitiva e emocional é exacerbada por condições ambientais e situacionais críticas. Estratégias para lidar com o cansaço e a exaustão, cuja implementação requer liderança e adesão organizacional, surgiram de países atingidos desde o início pela pandemia do COVID-19. Estas estratégias concentram-se em melhorar as condições do local de trabalho e incentivar a procura de ajuda.

• um estudo com profissionais de saúde da província de Hunan, na China, descobriu que directrizes explícitas de controle de infecções baseadas em evidências, equipamentos específicos e instalações especializadas para o tratamento do COVID 19 ajudaram a mitigar o desgaste psicológico.

• as recomendações baseadas na experiência italiana do COVID-19 incentivam a remoção do estigma associado à procura de ajuda, estabelecendo infraestruturas e oportunidades prontamente disponíveis para o apoio de colegas durante e após a crise.

Ausência de confiança entre os elementos da equipa de atendimento

O fluxo extraordinário de profissionais de saúde reunidos para reforçar as equipas de atendimento nos “pontos quentes” do COVID-19 exige a formação rápida de equipas e o estabelecimento de confiança nos líderes das equipas, etapas essenciais para garantir práticas seguras. Os processos para apoiar o desenvolvimento da equipa, que já devem estar incorporados nos procedimentos gerais da assistência na saúde, incluem:

pequenas reuniões iniciais (Huddles): estas pequenas reuniões de equipa operacionalizam a partilha direccionada de informações para actualizar os novos membros da equipa sobre a situação, fornecer ajuda com o esclarecimento de funções e as atribuições de tarefas clínicas.

reuniões finais (De-briefings): é um processo através do qual os novos membros da equipa são convidados a compartilhar as suas ideias depois que um episódio de assistência; esses resumos oferecem oportunidades para aprender com as suas experiências e destacam as oportunidades de melhoria.

listas de verificação (Checklist): os novos membros da equipa devem ser incentivados a seguir processos e a desafiar quaisquer lacunas observadas nesses processos, sem a necessidade de levar em consideração hierarquias e convenções com as quais eles não estão familiarizados.

Falta de tempo adequado para o doente e para o autocuidado

A natureza sem precedentes da prestação de cuidados no âmbito do COVID-19 torna as equipas que prestam cuidados directos vulneráveis às pressões de produção, o que pode afectar negativamente a tomada de decisões, a precisão das tarefas, o civismo, a atenção plena, a consciência situacional e a troca de informações – ou seja, todos os comportamentos e actividades essenciais para a segurança do doente. Embora o ritmo do local de trabalho nem sempre esteja sob o controle da equipa, o reconhecimento colectivo do impacto negativo de demandas substanciais, constantes e implacáveis ​​sobre os indivíduos exige maior atenção à saúde da equipa. Como é lógico garantir que os membros da equipa tenham pausas, alimentos e hidratação quando necessário pode ajudar a reduzir o potencial de erro em circunstâncias stressantes.

Falta de segurança psicológica

Em resposta à pandemia do COVID-19, não só as equipas se reúnem com pouco ou nenhum conhecimento umas das outras em comparação com as equipas clínicas estabelecidas, mas muitas dessas novas equipas incluem profissionais de saúde cujas habilidades podem precisar de actualização; as habilidades e competências colectivas dessas novas equipas de atendimento, das quais dependem muitos aspectos das práticas seguras da prestação de cuidados de saúde, podem ser menos do que ideais, acrescentando stressores emocionais, físicos e morais aos membros da equipa que já estão sob condições de stress elevado. A ansiedade associada à prestação de cuidados numa situação incerta também pode reduzir o desempenho do profissional. Por causa do COVID-19, os profissionais de saúde e restante pessoal estão actualmente a trabalhar em ambientes onde está a ocorrer uma perda de vidas sem precedentes; essa grave situação cria uma tensão psicológica individual e colectiva difícil e um sofrimento moral. Além disso, os profissionais podem encontrar-se a trabalhar em situações clínicas que consideram desconfortáveis, o que diminui a confiança na sua produção, a confiança na equipa e no desempenho individual. Os esforços para aumentar a segurança psicológica dos profissionais de saúde, especialmente durante as pandemias, devem idealmente concentrar-se em:

estabelecer uma cultura de segurança: incentivar todos os indivíduos de uma equipa de cuidados a expressar quaisquer preocupações que identifiquem como potencias ameaças à segurança da equipa e/ou doentes é fundamental para aumentar o bem-estar psicológico dos membros da equipa. Isso é mais difícil de conseguir durante os períodos de rápida implantação da equipa em ambientes desconhecidos, porque eles não estão familiarizados com as normas culturais, processos e hierarquia. Além disso, com o estabelecimento de novas unidades ou hospitais inteiros para aumentar a capacidade de resposta à pandemia do COVID-19, as demandas cognitivas, a fadiga e o stress na prestação de cuidados podem tornar este um momento particularmente desafiador para estabelecer ou melhorar a cultura de segurança.

experiência das indústrias de alto risco: as experiências obtidas noutras indústrias de alto risco, como a aviação, prospecção de petróleo em alto mar e energia nuclear nas quais ocorreram desastres em grande escala, enfatizam o valor do pessoal que expõe as condições em tempo real, evitando assim falhas catastróficas. Portanto, embora mais difícil de alcançar durante uma pandemia, promover uma cultura na qual os membros da equipa de cuidados sejam incentivados a expressar suas preocupações é um objectivo que vale a pena perseguir.

suporte organizacional à segurança do trabalhador: a escassez de protecções básicas, como equipamento de protecção individual (EPI), reduz a confiança dos trabalhadores na capacidade de uma organização em mantê-los seguros ao prestar assistência em situações perigosas e afecta adversamente o seu bem-estar físico e psicológico. Portanto, as organizações de saúde devem fazer todo o possível para proporcionar um ambiente de trabalho o mais seguro possível, o que inclui o fornecimento de EPI adequados. A falta de EPI adequado pode contribuir para reduzir a confiança do profissional e da comunidade nas organizações de saúde; para promover a segurança psicológica, as organizações de saúde devem seguir as orientações emitidas pelas entidades nacionais e manter os seus profissionais informados sobre os stocks locais actuais de EPI e os esforços da organização para obter mais. Uma revisão sistemática recente e meta-análise da literatura relacionada com equipas de saúde que trabalham com doentes durante surtos infecciosos relataram que vários factores clínicos, de treino, experiência, psicológicos e relacionados com o serviço (consistentes com os factores mencionados acima) podem aumentar o risco de stress psicológico. Pausas adequadas, maior experiência, feedback positivo, confiança nas medidas de controle de infecção e equipamento de protecção adequado demonstraram diminuir o risco de stress psicológico.

 

Estratégias para Melhorar a Segurança através da Engenharia dos Factores Humanos

A engenharia de factores humanos (HFE) pode ajudar a abordar respostas e mitigar os riscos decorrentes dos desafios discutidos acima. As abordagens de segurança que empregam HFE são cada vez mais aplicadas nos ambientes de saúde para reduzir os possíveis impactos negativos dos comportamentos individuais nos cuidados diários, seja de rotina ou durante uma crise. A HFE pode ajudar a realinhar os fluxos de trabalho para aumentar a confiança do trabalhador sob pressão, projectando processos para o proteger contra as falhas de sistemas decorrentes de erro humano. Conforme vai ser descrito abaixo, as estratégias para reduzir os erros humanos e que exigem recursos relativamente mínimos para serem empregues durante a pandemia do COVID-19 incluem, sinalização proeminente, revisão do fluxo de trabalho para identificar pontos de falha, listas de verificação (checklist) para colocar e retirar o EPI e simulações para testar processos.

sinalização: para reduzir a ansiedade, a ineficiência e as oportunidades de erro, deve ser usada uma sinalização de destaque para as localizações dos equipamentos; lembretes sobre higiene das mãos, uso de equipamentos de protecção individual e higiene e limpeza ambiental para evitar a transmissão de microrganismos; identificação das áreas restritas para tratamento do doente, espaços exclusivos para profissionais e saídas. Por exemplo, quando os espaços precisam de ser reconfigurados e usados ​​de maneiras diferentes para mitigar o risco de exposição e infecção, a sinalética pode ajudar a tranquilizar profissionais e doentes, minimizar as explicações necessárias e alinhar as acções. Os factores humanos e considerações sobre o fluxo de trabalho devem ser aplicados ao determinar o tamanho, a cor e fonte, a terminologia e o local da colocação dos sinais.

revisão e redesenho do fluxo de trabalho: os pontos de falha potenciais devem ser identificados quando estão a ser desenvolvidos fluxos de trabalho para novos processos, a fim de evitar proativamente oportunidades de erros que, de outra forma, poderiam ocorrer enquanto os que seguem os processos estão sob pressão adicional, seja durante uma pandemia ou durante a prática normal. Por exemplo, a metodologia de “avaliação do risco” e outras ferramentas de análise de tarefas podem ser implantadas rapidamente para avaliar a prontidão de uma área para uso seguro. Os resultados da análise podem ser usados ​​para desenvolver processos padronizados para triagem e encaminhamento de doentes, testes de diagnóstico, admissões, tratamentos, coordenação de cuidados e envolvimento do doente e da família.

listas de verificação(Checklist): além de serem úteis para a nova equipa (como mencionado acima), as listas de verificação também podem ser extremamente úteis para garantir que as etapas de segurança sejam executadas adequadamente, mesmo em situações particularmente stressantes, como durante a pandemia do COVID-19. Muitas vezes, as listas de verificação são fáceis de usar no contexto do atendimento, pois podem ser alinhadas e sincronizadas com os fluxos de trabalho e outros processos existentes de atendimento.

simulações: há muito reconhecidas como uma ferramenta de aprendizagem e aprimoramento em indústrias de alto risco, as simulações podem preparar as equipas e as organizações com experiências que podem ser usadas para optimizar a sua preparação para situações de crise, obtidas num ambiente de baixo risco. O conhecimento colectivo criado por meio do uso de simulações pode contribuir para novos métodos de treino, desenvolvimento de protocolos, actividades de colocação e remoção de equipamentos de protecção individual, identificação de problemas na utilização das instalações e fluxos de trabalho.

Este artigo descreve os factores de stress relevantes para a resposta do sector de saúde à pandemia de COVID-19 na perspectiva dos profissionais de saúde. Ele chama a atenção para a pressão significativa a nível pessoal com que a pandemia está a afectar os indivíduos que trabalham no sistema de saúde. As estratégias destacadas neste documento baseiam-se em conceitos fundamentais de segurança do doente, em vez de questões mais amplas (e também importantes) relacionadas com o COVID-19, como a melhoria da qualidade, epidemiologia, cuidados clínicos, e protecção do pessoal. Os profissionais de saúde e as organizações de saúde já estavam a aplicar essas estratégias antes do início da pandemia para reduzir as ameaças aos cuidados seguros, mas a sua implementação é mais importante do que nunca para manter os doentes e profissionais de saúde seguros na era do COVID-19.

Caso queiras saber mais, sugiro que faças o curso - A influência dos Factores Humanos na segurança do doente 

Fernando Barroso

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#segurancadodoente

Este é um artigo adaptado de Lorri Zipperer, membro da AHRQ PSNet team