A norma NP 4590:2023 estabelece os requisitos e as diretrizes para a implementação de um sistema de gestão do bem-estar e da felicidade organizacional em Portugal.
Este referencial normativo propõe uma estrutura estratégica baseada no ciclo PDCA (Planear, Executar, Verificar, Atuar), integrando dimensões objetivas de gestão e perceções subjetivas dos trabalhadores.
O documento define as responsabilidades da liderança, a importância do planeamento de riscos e a necessidade de monitorizar fatores físicos e psicossociais para promover ambientes saudáveis.
Adicionalmente, a norma sublinha que o investimento na satisfação das pessoas é um motor para a sustentabilidade, a inovação e o sucesso económico das instituições.
O texto detalha ainda critérios de avaliação de desempenho, auditoria e melhoria contínua para garantir a eficácia do sistema.
Através desta norma, as organizações são incentivadas a adotar uma cultura de transparência e empatia que valorize o desenvolvimento integral do capital humano.
De acordo com esta norma NP 4590, a promoção do bem-estar e da felicidade organizacional estrutura-se em duas dimensões fundamentais:
- Dimensão Objetiva: Refere-se ao conjunto de práticas de gestão implementadas e monitorizadas pela organização. Estas práticas resultam dos objetivos de negócio, do foco no desenvolvimento integral das pessoas e da resposta a requisitos legais e novos desafios das relações laborais. O sistema de gestão visa criar estas condições objetivas de bem-estar, esperando que as mesmas contribuam para o sentimento de felicidade dos colaboradores.
- Dimensão Subjetiva: Diz respeito à perceção individual de cada pessoa sobre a sua experiência de trabalho. Esta perceção resulta da comparação entre os resultados que o indivíduo perceciona e as suas expectativas pessoais. Por ser um estado emocional positivo sentido e reportado pelo próprio, a felicidade no trabalho apenas pode ser objeto de avaliação subjetiva.
Para gerir e melhorar a dimensão subjetiva, a norma ressalta a necessidade de criar um clima de proximidade, confiança e partilha, reconhecendo que a experiência de trabalho está interligada com as diversas componentes da vida humana.
Segundo a norma NP 4590, o bem-estar e a felicidade organizacional são avaliados através de métricas quantitativas ou qualitativas que traduzem a capacidade da organização em criar condições de bem-estar e felicidade no trabalho.
Os indicadores e métodos de medição podem ser classificados da seguinte forma:
1. Tipos de Indicadores
- Indicadores de Conformidade e Processo: Medem o cumprimento dos objetivos estabelecidos na política de bem-estar e a eficácia dos processos implementados para atingir esses resultados.
- Indicadores de Resultado Percecionado: Focam-se na perceção das partes interessadas (nomeadamente os colaboradores) relativamente ao impacto das políticas e práticas da organização no seu bem-estar.
- Indicadores Internos e Externos: Podem incluir dados de monitorização interna (como taxas de absentismo ou rotatividade) ou informações provenientes de auditorias e revisões pela gestão.
2. Instrumentos e Métodos Sugeridos
A norma elenca exemplos de métodos e instrumentos validados para avaliar os estados de bem-estar e felicidade, tais como:
- COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire);
- Escala HW22;
- EPSaO;
- DGS - Guia Técnico nº 3;
- Mental Health Inventory;
- Oldenburg BURNOUT Inventory.
3. Métodos de Monitorização e Recolha de Dados
A monitorização para alimentar estes indicadores deve ser sistemática e pode recorrer a:
- Inquéritos e questionários de diagnóstico;
- Entrevistas personalizadas ou grupos de foco (focus groups);
- Observações críticas nos locais de trabalho;
- Análise de sugestões, reclamações e elogios;
- Revisão de informação documentada e registos de desempenho.
A organização deve definir métodos que assegurem que os resultados sejam fiáveis, reprodutíveis e rastreáveis, permitindo a análise de tendências ao longo do tempo. Além disso, recomenda-se que cada objetivo (estratégico, tático ou operacional) esteja associado a um indicador de desempenho específico para facilitar a avaliação da sua eficácia.
Impacto na Segurança do Doente
A norma NP 4590:2023, embora não mencione explicitamente o
termo "segurança do doente", estabelece uma relação direta entre o bem-estar
dos profissionais e a qualidade e segurança do trabalho realizado, o que,
numa instituição de saúde, impacta diretamente o cuidado ao doente.
O cruzamento entre esta norma e a segurança do doente
ocorre através dos seguintes pontos:
- Redução
da Probabilidade de Erro: A norma reconhece que a criação de condições
de trabalho que promovam a segurança, saúde, bem-estar e felicidade das
pessoas reduz a probabilidade de erro, lesões e doenças. No
contexto hospitalar, a diminuição do erro humano é um pilar fundamental da
segurança do doente.
- Eficiência
e Performance Organizacional: O sistema de gestão visa equipas bem
dimensionadas, qualificadas e motivadas para atingir níveis superiores de
eficiência. Profissionais de saúde motivados e com saúde física e mental
preservada estão mais habilitados a entregar o melhor das suas capacidades,
resultando num desempenho clínico superior e mais seguro.
- Integração
com a Gestão da Qualidade: A NP 4590 foi desenvolvida para ser
compatível com a NP EN ISO 9001 (Sistemas de Gestão da Qualidade).
Uma vez que a segurança do doente é uma dimensão crítica da qualidade em
saúde, a integração destes sistemas permite que a promoção da felicidade
organizacional suporte os objetivos de qualidade clínica e segurança.
- Gestão
de Riscos Psicossociais: A norma foca na prevenção de riscos como o burnout
e o stresse excessivo através de ferramentas de avaliação (ex: COPSOQ,
Oldenburg Burnout Inventory). O stresse e o esgotamento dos profissionais
de saúde são fatores de risco conhecidos para a ocorrência de incidentes
de segurança do doente.
- Cultura
de Liderança e Comunicação: A norma promove uma cultura de proximidade,
confiança e partilha. Numa instituição de saúde, uma comunicação
transparente e positiva, onde os profissionais se sentem seguros para
reportar dificuldades e erros sem medo de punição injusta, é essencial
para a aprendizagem organizacional e para a prevenção de futuros danos aos
doentes.
- Foco
na Sustentabilidade e Comunidade: O bem-estar organizacional contribui
para que as instituições sejam mais inovadoras e competitivas, impactando
positivamente a comunidade. Instituições de saúde com profissionais
felizes tendem a ser mais sustentáveis e a oferecer cuidados de maior
valor para a sociedade.
Em suma, a norma intersecta a segurança do doente ao tratar
o bem-estar do profissional como um pré-requisito para a segurança
operacional, partindo do princípio de que "comunidades sustentáveis
necessitam de organizações eficientes e de pessoas felizes".
Já conheces esta Norma ISO?
UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#umdiaserastuodoente
Fernando Barroso











