Segurança
em Procedimentos Clínicos: O Risco Invisível da Apropriação de Materiais
A
segurança do doente é um dos pilares fundamentais de qualquer sistema de
saúde. No entanto, mesmo em procedimentos rotineiros, como as colheitas de
sangue ou a administração de terapêutica, existem riscos latentes que exigem
uma vigilância constante por parte de todos os profissionais. Um incidente
recente partilhado entre serviços hospitalares serve como um alerta crucial
para toda a comunidade de saúde.
O
Caso: Anatomia de um Incidente Prevenível
Recentemente,
num serviço de internamento hospitalar, ocorreu um incidente que coloca em
evidência a necessidade de reforço extremo nas medidas de segurança com
materiais clínicos. Durante uma colheita de análises clínicas de rotina
realizada por técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica (TSDT), um
utente internado conseguiu — conforme relatado pelo próprio — apropriar-se de
uma seringa e de uma agulha.
Posteriormente,
o doente utilizou este material para se autoinjetar com medicação diluída em
água. O incidente, notificado através do sistema oficial de gestão de
incidentes de segurança do doente "NOTIFICA", resultou em danos
físicos e emocionais moderados para o utente, que apresentou dor, edema e
alteração de coloração no membro superior direito, exigindo exames
complementares urgentes e observação por especialidades de medicina interna,
psiquiatria e cirurgia. Este comportamento foi registado como dano infligido a
si próprio.
Um
Risco Universal: Não é Apenas um Problema da Psiquiatria!
Embora
este incidente específico tenha ocorrido no Serviço de Psiquiatria, é um erro
grave assumir que este tipo de comportamento ou risco se limita apenas a
doentes psiquiátricos. A apropriação de materiais perfurantes ou cortantes
pode acontecer com qualquer tipo de doente em qualquer serviço de saúde.
Doentes
noutros contextos clínicos podem apresentar episódios de:
- Estados
de confusão mental ou delírio:
Frequentes em idosos internados, doentes em unidades de cuidados
intensivos ou pós-operatórios.
- Crises
de abstinência:
Doentes com dependências químicas que podem procurar vias alternativas ou
materiais para consumo.
- Desespero
ou impulsividade extrema:
Doentes com diagnósticos graves ou sob stresse agudo em serviços de
urgência geral.
- Perturbações
cognitivas temporárias ou permanentes: Como demências ou sequelas neurológicas.
Por
isso, a premissa de que "o doente está calmo" ou "este não é um
serviço de psiquiatria" nunca deve servir de justificação para relaxar as
normas de segurança.
Medidas
Essenciais de Segurança e Vigilância
Para
mitigar estes riscos e garantir a segurança tanto dos utentes como dos
profissionais de saúde, é essencial adotar e reforçar práticas rígidas de
controlo de dispositivos clínicos:
- Vigilância
e Controlo Permanente dos Materiais: Todo o material clínico — especialmente seringas,
agulhas, lancetas e tubos de colheita — deve permanecer sob controlo
visual permanente e fora do alcance físico dos utentes. As bandejas ou
carros de colheita nunca devem ser deixados sem supervisão, mesmo que por
breves segundos.
- Eliminação
Imediata e Segura:
Os materiais cortoperfurantes devem ser descartados no contentor
apropriado imediatamente após a sua utilização, preferencialmente no
próprio local da colheita, evitando o transporte desnecessário de agulhas
expostas.
- Adequação
de Rácios e Apoio à Prestação de Cuidados: A presença de rácios de
enfermagem e de técnicos auxiliares de saúde adequados é fundamental para
garantir a vigilância contínua dos utentes nos turnos mais críticos (como
o turno da tarde e da noite). Em procedimentos com doentes agitados ou
confusos, a colheita deve ser idealmente realizada com o apoio de outro
profissional.
- Comunicação
e Partilha Preventiva:
Incidentes ou quase-incidentes devem ser sempre notificados e analisados
formalmente. A partilha destas ocorrências entre diferentes serviços (como
Patologia Clínica, Enfermagem e Psiquiatria) permite uma cultura de
aprendizagem e prevenção contínua.
Conclusão:
Uma Responsabilidade Partilhada
A análise e divulgação de incidentes de segurança têm um propósito exclusivamente preventivo. Não se trata de procurar culpados, mas sim de identificar vulnerabilidades nos processos e capacitar as equipas para proteger o doente. Manter os materiais sob controlo rigoroso e assumir que a segurança é uma prioridade em todas as colheitas, independentemente do doente ou do serviço, é o caminho para um cuidado de saúde verdadeiramente seguro e humanizado.
Este artigo é baseado num incidente real.
UM DIA SERÁS TU O DOENTE!











