sexta-feira, 10 de julho de 2026

Gestão do Bem-Estar e Felicidade Organizacional: Norma Portuguesa 4590

 

A norma NP 4590:2023 estabelece os requisitos e as diretrizes para a implementação de um sistema de gestão do bem-estar e da felicidade organizacional em Portugal. 

Este referencial normativo propõe uma estrutura estratégica baseada no ciclo PDCA (Planear, Executar, Verificar, Atuar), integrando dimensões objetivas de gestão e perceções subjetivas dos trabalhadores. 

O documento define as responsabilidades da liderança, a importância do planeamento de riscos e a necessidade de monitorizar fatores físicos e psicossociais para promover ambientes saudáveis. 

Adicionalmente, a norma sublinha que o investimento na satisfação das pessoas é um motor para a sustentabilidade, a inovação e o sucesso económico das instituições. 

O texto detalha ainda critérios de avaliação de desempenho, auditoria e melhoria contínua para garantir a eficácia do sistema. 

Através desta norma, as organizações são incentivadas a adotar uma cultura de transparência e empatia que valorize o desenvolvimento integral do capital humano.

De acordo com esta norma NP 4590, a promoção do bem-estar e da felicidade organizacional estrutura-se em duas dimensões fundamentais:

  • Dimensão Objetiva: Refere-se ao conjunto de práticas de gestão implementadas e monitorizadas pela organização. Estas práticas resultam dos objetivos de negócio, do foco no desenvolvimento integral das pessoas e da resposta a requisitos legais e novos desafios das relações laborais. O sistema de gestão visa criar estas condições objetivas de bem-estar, esperando que as mesmas contribuam para o sentimento de felicidade dos colaboradores.
  • Dimensão Subjetiva: Diz respeito à perceção individual de cada pessoa sobre a sua experiência de trabalho. Esta perceção resulta da comparação entre os resultados que o indivíduo perceciona e as suas expectativas pessoais. Por ser um estado emocional positivo sentido e reportado pelo próprio, a felicidade no trabalho apenas pode ser objeto de avaliação subjetiva.

Para gerir e melhorar a dimensão subjetiva, a norma ressalta a necessidade de criar um clima de proximidade, confiança e partilha, reconhecendo que a experiência de trabalho está interligada com as diversas componentes da vida humana.

Segundo a norma NP 4590, o bem-estar e a felicidade organizacional são avaliados através de métricas quantitativas ou qualitativas que traduzem a capacidade da organização em criar condições de bem-estar e felicidade no trabalho.

Os indicadores e métodos de medição podem ser classificados da seguinte forma:

1. Tipos de Indicadores

  • Indicadores de Conformidade e Processo: Medem o cumprimento dos objetivos estabelecidos na política de bem-estar e a eficácia dos processos implementados para atingir esses resultados.
  • Indicadores de Resultado Percecionado: Focam-se na perceção das partes interessadas (nomeadamente os colaboradores) relativamente ao impacto das políticas e práticas da organização no seu bem-estar.
  • Indicadores Internos e Externos: Podem incluir dados de monitorização interna (como taxas de absentismo ou rotatividade) ou informações provenientes de auditorias e revisões pela gestão.

2. Instrumentos e Métodos Sugeridos

A norma elenca exemplos de métodos e instrumentos validados para avaliar os estados de bem-estar e felicidade, tais como:

  • COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire);
  • Escala HW22;
  • EPSaO;
  • DGS - Guia Técnico nº 3;
  • Mental Health Inventory;
  • Oldenburg BURNOUT Inventory.

3. Métodos de Monitorização e Recolha de Dados

A monitorização para alimentar estes indicadores deve ser sistemática e pode recorrer a:

  • Inquéritos e questionários de diagnóstico;
  • Entrevistas personalizadas ou grupos de foco (focus groups);
  • Observações críticas nos locais de trabalho;
  • Análise de sugestões, reclamações e elogios;
  • Revisão de informação documentada e registos de desempenho.

A organização deve definir métodos que assegurem que os resultados sejam fiáveis, reprodutíveis e rastreáveis, permitindo a análise de tendências ao longo do tempo. Além disso, recomenda-se que cada objetivo (estratégico, tático ou operacional) esteja associado a um indicador de desempenho específico para facilitar a avaliação da sua eficácia.

Impacto na Segurança do Doente

A norma NP 4590:2023, embora não mencione explicitamente o termo "segurança do doente", estabelece uma relação direta entre o bem-estar dos profissionais e a qualidade e segurança do trabalho realizado, o que, numa instituição de saúde, impacta diretamente o cuidado ao doente.

O cruzamento entre esta norma e a segurança do doente ocorre através dos seguintes pontos:

  • Redução da Probabilidade de Erro: A norma reconhece que a criação de condições de trabalho que promovam a segurança, saúde, bem-estar e felicidade das pessoas reduz a probabilidade de erro, lesões e doenças. No contexto hospitalar, a diminuição do erro humano é um pilar fundamental da segurança do doente.
  • Eficiência e Performance Organizacional: O sistema de gestão visa equipas bem dimensionadas, qualificadas e motivadas para atingir níveis superiores de eficiência. Profissionais de saúde motivados e com saúde física e mental preservada estão mais habilitados a entregar o melhor das suas capacidades, resultando num desempenho clínico superior e mais seguro.
  • Integração com a Gestão da Qualidade: A NP 4590 foi desenvolvida para ser compatível com a NP EN ISO 9001 (Sistemas de Gestão da Qualidade). Uma vez que a segurança do doente é uma dimensão crítica da qualidade em saúde, a integração destes sistemas permite que a promoção da felicidade organizacional suporte os objetivos de qualidade clínica e segurança.
  • Gestão de Riscos Psicossociais: A norma foca na prevenção de riscos como o burnout e o stresse excessivo através de ferramentas de avaliação (ex: COPSOQ, Oldenburg Burnout Inventory). O stresse e o esgotamento dos profissionais de saúde são fatores de risco conhecidos para a ocorrência de incidentes de segurança do doente.
  • Cultura de Liderança e Comunicação: A norma promove uma cultura de proximidade, confiança e partilha. Numa instituição de saúde, uma comunicação transparente e positiva, onde os profissionais se sentem seguros para reportar dificuldades e erros sem medo de punição injusta, é essencial para a aprendizagem organizacional e para a prevenção de futuros danos aos doentes.
  • Foco na Sustentabilidade e Comunidade: O bem-estar organizacional contribui para que as instituições sejam mais inovadoras e competitivas, impactando positivamente a comunidade. Instituições de saúde com profissionais felizes tendem a ser mais sustentáveis e a oferecer cuidados de maior valor para a sociedade.

Em suma, a norma intersecta a segurança do doente ao tratar o bem-estar do profissional como um pré-requisito para a segurança operacional, partindo do princípio de que "comunidades sustentáveis necessitam de organizações eficientes e de pessoas felizes".

Já conheces esta Norma ISO?

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sábado, 4 de julho de 2026

Seguimento Pós-Hospitalar em Idosos: Os Desafios e Riscos na Passagem para os Cuidados de Saúde Primários

 

A transição do hospital para o domicílio é reconhecida como um momento de elevada vulnerabilidade para os idosos, que frequentemente apresentam quadros de multimorbilidade, fragilidade e polifarmácia. 

Um estudo retrospetivo recente, realizado no Reino Unido, analisou o processamento das notas de alta nos cuidados de saúde primários e revelou dados cruciais sobre a segurança do doente neste período crítico.

O impacto do regresso a casa

A investigação acompanhou 263 doentes com 65 ou mais anos e concluiu que a utilização de cuidados de saúde após a alta é muito elevada: cerca de 70,7% dos doentes necessitaram de aceder a cuidados pós-alta num período de 90 dias. Destes, 17,5% acabaram por ser readmitidos no hospital por motivos diretamente relacionados com a hospitalização anterior.

Erros e Danos: Uma realidade preocupante

Um dos pontos centrais do estudo foi a análise das "ações" solicitadas pelos hospitais aos médicos de família (como ajustes na medicação ou exames de seguimento). Os resultados apontam para falhas sistémicas:

  • Taxa de Erro: Em cada cinco doentes que necessitavam de uma ação clínica pós-alta, pelo menos um sofreu um erro de processamento (20,6%).
  • Danos para o Doente: Cerca de 4,4% dos doentes sofreram danos reais devido a estas falhas.
  • Readmissões Evitáveis: A maioria dos danos identificados resultou em readmissões hospitalares, sendo que muitos destes casos foram considerados evitáveis se tivessem sido geridos corretamente nos cuidados primários.

Quem são os doentes em maior risco?

O estudo identificou grupos específicos que apresentam uma vulnerabilidade muito superior:

  1. Doentes com Demência: Estes doentes têm uma probabilidade quase cinco vezes maior de sofrer erros no seguimento pós-alta e um risco significativamente mais elevado de sofrer danos reais.
  2. Doentes com Cuidador Registado: A presença de um cuidador no registo clínico também foi associada a um maior risco de erro, possivelmente refletindo a maior complexidade clínica destes indivíduos.
  3. Admissões de Urgência: Todos os danos registados no estudo ocorreram após admissões hospitalares de urgência, não se tendo verificado danos em casos de cirurgias programadas (eletivas).

A medicação no centro do problema

A maioria dos erros detetados (60%) estava relacionada com a medicação, particularmente com a falha em iniciar novos medicamentos prescritos pelo hospital nas receitas de continuação dos cuidados primários. Estes erros de reconciliação terapêutica podem levar a complicações graves, como infeções não tratadas ou controlo inadequado da dor.

O que mudou numa década?

Ao comparar estes dados com um estudo semelhante realizado há 10 anos, verificou-se que a taxa de erro na gestão das altas baixou de 45,5% para 21,5%. No entanto, apesar desta melhoria estatística, a taxa de danos graves para o doente não diminuiu de forma significativa, o que demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer na segurança destas transições.

Conclusão e Recomendações

Para melhorar a segurança do doente, o estudo sugere que as unidades de saúde devem rever urgentemente os seus processos de receção de informação hospitalar. É fundamental priorizar a revisão clínica de doentes de alto risco (especialmente aqueles com demência) e investir em ferramentas digitais e tempo clínico dedicado para garantir que nenhuma recomendação hospitalar se perca na transição para casa.

Fonte: https://bjgp.org/content/early/2026/06/30/BJGP.2025.0627 

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A Evolução Histórica da Segurança do Doente

 

As Raízes Históricas e os Pioneiros

Historicamente, a doença era frequentemente vista como uma punição divina, e o cuidado envolvia a intercessão de sacerdotes e o uso de poções. No final do século XIX, prevalecia a ideia de que os erros eram falhas individuais raras, sem grande peso no resultado final do tratamento. Figuras marcantes desafiaram esta visão:

     Florence Nightingale: Durante a Guerra da Crimeia, demonstrou que mudanças simples na higiene e alimentação dos soldados reduziam drasticamente a mortalidade.

     Ignaz Semmelweis: Em 1847, provou que a lavagem das mãos pelos profissionais de saúde era essencial para prevenir a febre puerperal, embora a sua recomendação tenha sido inicialmente rejeitada pelos pares.

     Ernest Codman: Defendeu a "ideia do resultado final", propondo que os hospitais deveriam acompanhar os seus resultados e tornar as falhas públicas para aprender com elas, o que fundamentou a acreditação hospitalar moderna.

 

A Ascensão da Medicina Baseada na Evidência

No século XX, o foco deslocou-se para a eficácia científica. Archie Cochrane tornou-se um pioneiro ao defender a utilização do método científico para investigar a eficiência dos tratamentos, levando à criação de revisões sistemáticas para apoiar as decisões clínicas. Simultaneamente, John Wennberg identificou variações injustificadas na prática médica entre diferentes regiões, atribuindo-as mais ao comportamento do clínico do que às necessidades do doente.


O Impacto dos Grandes Estudos e Relatórios

A medição da magnitude do problema foi um passo crucial para a segurança do doente:

     Harvard Medical Practice Study (1984): Revelou que 3,7% dos doentes sofriam incidentes no hospital, a maioria dos quais evitáveis.

     To Err is Human (IOM, 1999): Este relatório foi o grande ponto de viragem, estimando que entre 44.000 a 98.000 mortes anuais nos EUA ocorriam devido a erros evitáveis, alertando o mundo para os elevados custos sociais e económicos.

     An Organisation with a Memory (Reino Unido, 2000): Reforçou a necessidade de passar de uma cultura de culpabilização individual para uma cultura de aprendizagem sistémica.

 

O Papel das Instituições Internacionais

A partir de 2004, a segurança do doente tornou-se uma prioridade global:

     Organização Mundial de Saúde (OMS): Criou a Aliança Mundial para a Segurança do Doente e lançou desafios mundiais como a "Higienização das Mãos" e "Cirurgia Segura Salva Vidas".

     Joint Commission International (JCI): Em parceria com a OMS, definiu nove "Soluções de Segurança do Doente" (2007) para sistematizar medidas preventivas em áreas críticas, como a identificação do doente e a conciliação medicamentosa.

     Institute for Healthcare Improvement (IHI): Protagonizou as campanhas das "100 mil vidas" e "5 milhões de vidas", implementando intervenções práticas para impedir mortes desnecessárias.

 

Conclusão: O Imperativo da Cultura de Segurança

O caso do Hospital de Stafford, no Reino Unido, onde o foco nos objetivos financeiros ignorou falhas graves na segurança, serve como um aviso histórico sobre os perigos de descurar a qualidade assistencial. O caminho percorrido mostra que a segurança do doente exige um esforço conjunto entre indivíduos e sistemas, sendo hoje reconhecida como um elemento sine qua non para um cuidado de saúde de excelência.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Três vertentes do uso em Saúde e Qualidade dos Cuidados - Overuse; Underuse e Misuse

 

Os principais problemas de qualidade decorrem do uso excessivo (overuse), uso insuficiente (underuse) e uso inadequado (misuse) de serviços e tecnologias.

Estes três conceitos — Uso excessivo (overuse), Uso insuficiente (underuse) e Uso inadequado (misuse) — são fundamentais na gestão da qualidade em saúde e na segurança do doente. Eles ajudam a identificar falhas na prestação de cuidados que comprometem os resultados clínicos e a eficiência dos sistemas.

Estes são alguns exemplos práticos para cada uma destas vertentes, focados no contexto da prestação de cuidados de saúde:

1. Uso Excessivo (Overuse)

Ocorre quando se fornece um cuidado de saúde ou tecnologia sem que haja benefício clínico demonstrado, ou quando o risco potencial supera os potenciais benefícios.

  • Prescrição de Antibióticos: Receitar antibióticos para infeções virais (como uma constipação comum), onde o medicamento não tem eficácia e ainda contribui para o aumento das resistências antimicrobianas.
  • Exames de Diagnóstico por Imagem Redundantes: Realizar exames de TC (Tomografia Computadorizada) ou Ressonância Magnética para dores lombares agudas sem sinais de alerta (red flags), ou repetir exames de imagem apenas por falta de partilha de dados entre instituições.
  • Intervenções Cirúrgicas Desnecessárias: Indicação para cirurgias (como certas artroscopias do joelho ou partos por cesariana) sem critérios clínicos estritos que as justifiquem face às alternativas menos invasivas.

2. Uso Insuficiente (Underuse)

Caracteriza-se pela omissão ou não disponibilização de cuidados de saúde e tecnologias que estão cientificamente provados como eficazes, seguros e necessários para o doente.

  • Falhas na Imunização: Não administrar vacinas recomendadas (como a da gripe ou pneumonia em grupos de risco), levando a internamentos evitáveis.
  • Submedicação na Gestão de Doenças Crónicas: Não prescrever betabloqueadores após um enfarte agudo do miocárdio ou não otimizar a terapêutica com inaladores em doentes com Asma ou DPOC severe.
  • Atrasos no Rastreio Oncológico: Falha em encaminhar utentes elegíveis para rastreios de base populacional (cancro colorretal, da mama ou do colo do útero), resultando em diagnósticos tardios e pior prognóstico.

3. Uso Inadequado (Misuse)

Acontece quando um serviço de saúde ou tecnologia apropriado é selecionado, mas ocorre um erro ou complicação evitável durante a sua execução, impedindo que o doente receba o benefício total. Está diretamente ligado a falhas nos processos de trabalho e à segurança do doente.

  • Erros de Medicação: Prescrever o fármaco correto para a patologia do doente, mas com uma dosagem incorreta, via de administração errada ou ignorando uma interação medicamentosa grave.
  • Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde (IACS): Realizar uma algaliação necessária, mas falhar nas técnicas de assepsia durante a inserção do cateter urinário, provocando uma infeção do trato urinário.
  • Erros no Local Cirúrgico: Proceder a uma intervenção cirúrgica indicada, mas falhar na marcação do local correto ou na verificação da lista de verificação de segurança cirúrgica (checklist), operando o membro errado.

A monitorização destas três vertentes através de auditorias clínicas e indicadores de qualidade permite desenhar intervenções mais robustas para garantir que cada doente recebe o cuidado certo, na dose certa e no momento adequado.

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Contexto da Qualidade na Saúde

 

O Contexto da Qualidade na Saúde

A discussão atual sobre a qualidade é impulsionada por pressões como o alto custo dos cuidados, a rápida incorporação tecnológica, o envelhecimento da população e o aumento da carga de trabalho dos profissionais. Nesse cenário, as organizações procuram a melhoria contínua e a responsabilização (accountability).

Os principais problemas de qualidade decorrem do uso excessivo (overuse), uso insuficiente (underuse) e uso inadequado (misuse) de serviços e tecnologias. Além disso, persiste uma variação injustificável na prática clínica que não se explica pela gravidade da doença ou pela preferência do doente, mas sim por falhas na aplicação de evidências científicas.

A Multidimensionalidade do Conceito

A qualidade é um conceito subjetivo e multidimensional, variando conforme a perspetiva do doente, do profissional ou do gestor. Historicamente, o foco centrava-se na eficiência e efetividade, mas evoluiu para incluir a segurança, a centralidade no doente e o respeito pelos seus direitos.

Os Contributos de Avedis Donabedian

Donabedian, autor seminal na área, define o cuidado de qualidade como aquele que maximiza o bem-estar do doente após equilibrar ganhos e perdas. Ele propôs os "sete pilares" da qualidade:

  1. Eficácia: capacidade de produzir impacto em situações ideais.
  2. Efetividade: melhoria real da saúde alcançada na prática quotidiana.
  3. Eficiência: redução de custos sem comprometer o nível de saúde.
  4. Otimização: balanço entre melhorias e custos envolvidos.
  5. Aceitabilidade: conformidade com os desejos e valores dos doentes e famílias.
  6. Legitimidade: conformidade com preferências sociais e normas éticas.
  7. Equidade: distribuição justa e equânime dos benefícios do cuidado.

A Tríade: Estrutura, Processo e Resultado

Para avaliar a qualidade, Donabedian estabeleceu uma abordagem clássica baseada em três componentes inter-relacionados:

  • Estrutura: condições sob as quais o cuidado é prestado (recursos físicos, humanos e financeiros).
  • Processo: conjunto de atividades desenvolvidas diretamente com o doente (diagnóstico, tratamento e educação).
  • Resultado: mudanças no estado de saúde, satisfação ou conhecimento do doente atribuíveis ao cuidado recebido.

Segurança como Dimensão da Qualidade

A partir da publicação do relatório "To Err is Human" (1999) pelo Institute of Medicine (IOM), a segurança do doente passou a ser vista como um atributo indissociável da qualidade. O IOM (2001) consolidou seis dimensões da qualidade: segurança, efetividade, centralidade no doente, oportunidade, eficiência e equidade.

A segurança é definida como a redução, a um mínimo aceitável, do risco de dano desnecessário associado ao cuidado. Eventos adversos são compreendidos como mudanças indesejáveis no estado de saúde do doente resultantes da assistência prestada, e não da doença de base.

Conclusão

Melhorar a qualidade e a segurança é uma tarefa complexa que exige o envolvimento de toda a organização. A segurança é um elemento sine qua non para um cuidado de qualidade, mas não é o único; um cuidado de excelência deve ser também efetivo, oportuno e respeitoso com as preferências do doente.

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domingo, 28 de junho de 2026

A Segurança do Doente: Uma Viagem pela História do Cuidar

 

A Segurança do Doente: Uma Viagem pela História do Cuidar

A preocupação com a segurança do doente, embora pareça um conceito moderno, tem raízes profundas na história da medicina. Tradicionalmente, acreditava-se que o cuidado de saúde produzia apenas resultados positivos, mas a evidência das últimas décadas demonstrou o potencial de dano, transformando a segurança numa dimensão fundamental da qualidade assistencial.

As Raízes na Antiguidade

A primeira referência explícita à segurança do doente surge na Grécia Antiga com Hipócrates (460-377 a.C.). O pai da medicina cunhou o princípio "Primum non nocere" (primeiro, não causar dano), estabelecendo que o médico deve dirigir os cuidados à recuperação, abstendo-se de toda a maldade. Naquela época, a doença era muitas vezes vista como uma punição divina, e o tratamento envolvia uma mistura de poções e intercessão religiosa.

Os Pioneiros do Século XIX

O século XIX trouxe figuras marcantes que desafiaram o pensamento dominante de que os erros eram falhas individuais raras e sem peso no resultado final.

  • Florence Nightingale: Durante a Guerra da Crimeia, revolucionou a enfermagem ao demonstrar que mudanças simples na higiene e alimentação dos soldados reduziam drasticamente as mortes. Em 1863, afirmou que a primeira exigência de um hospital é não fazer mal ao doente.
  • Ignaz Semmelweis: Em 1847, identificou que a febre puerperal era transmitida pelas mãos dos médicos que passavam das autópsias para os partos sem as lavar. Embora tenha proposto a desinfeção das mãos como medida preventiva, foi rejeitado pelos seus pares.
  • Louis Pasteur e Robert Koch: Na segunda metade do século, as suas descobertas fundamentaram a Teoria Microbiana da Infecção, dando base científica às intuições de Semmelweis.

A Evolução no Século XX: Ciência e Sistemas

No início do século XX, Ernest Codman introduziu a "ideia do resultado final", defendendo que os hospitais deveriam acompanhar os seus resultados e tornar as falhas públicas para aprender com elas. Os seus esforços levaram à criação do "Padrão Mínimo" em 1917, alicerce da acreditação hospitalar moderna.

Mais tarde, Archie Cochrane defendeu a utilização do método científico para investigar a eficácia dos tratamentos, tornando-se um dos pioneiros da medicina baseada na evidência. Simultaneamente, James Reason revolucionou a compreensão do erro com a sua Teoria do Erro Humano, propondo o famoso "Modelo do Queijo Suíço", que explica como falhas sistémicas sucessivas permitem que um erro atinja o doente.

O Ponto de Viragem: "Errar é Humano"

O marco mais significativo da era contemporânea foi a publicação, em 1999/2000, do relatório "To Err is Human" pelo Institute of Medicine (IOM) dos EUA. Este documento revelou que entre 44.000 a 98.000 mortes anuais nos EUA eram causadas por erros evitáveis, alertando o mundo para a magnitude do problema e os seus custos sociais e económicos.

O Papel das Instituições Internacionais

A partir de 2000, a segurança do doente tornou-se uma prioridade global impulsionada por grandes instituições:

  • OMS (Organização Mundial de Saúde): Criou a Aliança Mundial para a Segurança do Doente em 2004 e lançou os Desafios Globais, como o "Clean Care is Safer Care" (higienização das mãos), "Safe Surgery Saves Lives" (cirurgia segura) e, mais recentemente, o "Medication Without Harm".
  • IHI (Institute for Healthcare Improvement): Protagonizou campanhas de grande impacto como as das "100 mil vidas" e "5 milhões de vidas", focadas na prevenção de mortes e incidentes desnecessários.
  • AHRQ (Agency for Healthcare Research and Quality): Desenvolveu indicadores de segurança e revisões críticas de práticas eficazes.
  • Joint Commission International (JCI): Em parceria com a OMS, definiu as nove "Soluções de Segurança do Doente" e as Metas Internacionais de Segurança, fundamentais para os processos de acreditação.

Conclusão

A história da segurança do doente mostra um caminho lento mas firme: da culpabilização individual para a cultura de segurança justa. Hoje, o foco reside no sistema e no envolvimento ativo do doente e da família, reconhecendo que a segurança é um elemento sine qua non para um cuidado de saúde de qualidade.

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sábado, 27 de junho de 2026

DECLARAÇÃO DE APETITE PELO RISCO da OMS


Organização Mundial da Saúde divulgou a sua DECLARAÇÃO DE APETITE PELO RISCO, definindo o nível de incerteza que a instituição aceita para cumprir a sua missão global. 

A estrutura baseia-se em fatores-chave de sucesso, como a excelência técnica e a integridade, classificando a tolerância ao risco desde níveis adversos até abordagens mais abertas

Enquanto a organização mantém uma política de tolerância zero para condutas graves como a fraude e o abuso sexual, admite uma maior flexibilidade operacional durante emergências de saúde pública

O objetivo central é orientar a tomada de decisão em todos os patamares hierárquicos, garantindo que os recursos sejam priorizados de forma consciente e transparente. 

Através deste enquadramento, a OMS procura equilibrar a necessidade de inovação e impacto com a salvaguarda da sua reputação e sustentabilidade financeira.

Fonte: https://cdn.who.int/media/docs/default-source/documents/about-us/accountability/who-risk-appetite-statement.pdf?sfvrsn=66d0a838_4 

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

O que é uma doença não transmissível? Compreender o tema do Dia Mundial da Segurança do Doente deste ano…

 

O que é uma doença não transmissível? Compreender o tema do Dia Mundial da Segurança do Doente deste ano…

Na quinta-feira, 17 de setembro de 2026, realiza-se o 7º Dia Mundial da Segurança do Doente, focado no tema "Cuidados seguros para doenças não transmissíveis".

Neste artigo original do blog Patient Safety Learning, é explicado o que são as doenças não transmissíveis e por que razão representam uma prioridade na segurança do doente.

Conteúdo

O Dia Mundial da Segurança do Doente incentiva-nos a refletir sobre alguns dos desafios mais persistentes e complexos que os sistemas de saúde enfrentam a nível global. Alguns dos mais significativos estão relacionados com as doenças não transmissíveis (DNT).

O que são as DNT?

As DNT, de forma simples, são doenças de longa duração que não se transmitem de pessoa para pessoa. Estas representam uma proporção significativa de morbilidade, incapacidade e mortalidade prematura. As DNT incluem:

  • doenças cardiovasculares (como ataques cardíacos e hipertensão)
  • cancro
  • doenças respiratórias crónicas (incluindo DPOC e asma)
  • diabetes
  • condições neurológicas
  • condições genéticas.

Ao contrário das doenças infecciosas, que são causadas por agentes patogénicos e se podem propagar entre indivíduos, as DNT são tipicamente o resultado de uma combinação de fatores genéticos, fisiológicos, ambientais e comportamentais. Os fatores de risco comuns incluem o consumo de tabaco, dietas pouco saudáveis, a inatividade física e o uso nocivo do álcool.

Impacto das DNT

As DNT são uma das principais causas de morte em todo o mundo. As estimativas globais de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 43 milhões de pessoas morreram devido a DNT em 2021. Mais de 18 milhões de mortes por DNT ocorreram em pessoas com menos de 70 anos de idade.

Um relatório publicado recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) avaliou os benefícios económicos e de saúde do combate às DNT. O documento destacou que:

  • Apesar de décadas de esforços nacionais, as taxas de DNT continuaram a aumentar entre 1990 e 2023.
  • Entre os membros da OCDE (países de rendimento alto e médio), se não existissem DNT, a despesa com a saúde seria cerca de 40% inferior.
  • Enfrentar e reduzir a taxa de DNT é um dos maiores desafios de saúde global que enfrentamos.

As DNT e a segurança do doente

Embora grande parte do discurso em torno das DNT se concentre na prevenção e em intervenções de saúde pública, existe uma dimensão de segurança do doente igualmente importante que merece atenção. Um dos objetivos centrais do Dia Mundial da Segurança do Doente deste ano é aumentar a consciencialização para os desafios de segurança associados às DNT ao longo de todo o percurso de cuidados e tratamento do doente.

As pessoas que vivem com DNT necessitam frequentemente de cuidados a longo prazo, de múltiplos medicamentos e de interações com diferentes áreas do sistema de saúde. Esta complexidade aumenta o risco de incidentes de segurança, tais como erros de medicação, diagnósticos tardios ou cuidados fragmentados.

Do ponto de vista da segurança do doente, as DNT evidenciam a necessidade de cuidados coordenados e centrados na pessoa. Os doentes com múltiplas patologias podem ser assistidos por vários especialistas, cada um com os seus próprios planos de tratamento, que por vezes podem entrar em conflito ou levar a consequências indesejadas. Garantir uma comunicação clara entre as equipas de saúde e com os próprios doentes é fundamental para reduzir os danos.

As desigualdades na saúde também desempenham um papel significativo. Globalmente, as DNT afetam desproporcionalmente as pessoas nas comunidades mais desfavorecidas. Estes grupos podem enfrentar barreiras no acesso aos cuidados, menor literacia em saúde e uma maior exposição a fatores de risco. Abordar estas disparidades não é apenas uma questão de saúde pública, mas também de segurança e equidade para o doente.

O papel dos doentes e das famílias

A sensibilização e o combate aos problemas de segurança do doente associados às DNT também exigem o reconhecimento do papel importante que os doentes e as famílias podem desempenhar. A promoção do envolvimento significativo das pessoas que vivem com DNT e das suas comunidades é um objetivo fundamental do Dia Mundial da Segurança do Doente deste ano.

As pessoas que vivem com DNT desenvolvem frequentemente uma compreensão profunda das suas condições e podem ser parceiros valiosos na identificação de riscos e na prevenção de danos. Incentivar a tomada de decisão partilhada e apoiar os utentes para que manifestem as suas preocupações são componentes essenciais para uns cuidados mais seguros.

Olhando para o Dia Mundial da Segurança do Doente, fica claro que combater as DNT não se resume a gerir condições de longo prazo — trata-se de desenhar sistemas que sejam mais seguros, mais integrados e mais recetivos às necessidades de quem os utiliza. Isto exige a colaboração entre setores, investimento sustentado e o compromisso de aprender tanto com os sucessos como com os fracassos.

Ao colocar a segurança do doente no centro dos cuidados das DNT, podemos caminhar para um sistema de saúde que não se limita a tratar a doença e a reduzir a despesa pública, mas que trabalha ativamente para prevenir danos e melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas.

Site OMS: https://www.who.int/campaigns/world-patient-safety-day/2026 

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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um Profissional de Saúde Pode Recusar ser Auditado?

Um Profissional de Saúde Pode Recusar ser Auditado?

A resposta curta é NÃO!

A segurança do doente é o pilar invisível que sustenta a confiança entre os cidadãos e as instituições de saúde. No entanto, no quotidiano clínico, surgem frequentemente dúvidas sobre os mecanismos que garantem essa segurança — nomeadamente as auditorias clínicas.

Uma das questões mais pertinentes que recebi recentemente reflete uma dúvida comum nas equipas: Pode um profissional de saúde recusar ser auditado durante a prestação de cuidados?

Neste artigo, exploro o enquadramento legal e ético que torna a auditoria uma parte integrante (e obrigatória) da prática profissional.

1. A Auditoria como Ferramenta de Segurança e não de Punição

Ao contrário do que o termo possa sugerir a alguns, a auditoria não tem uma natureza punitiva. Trata-se de uma ferramenta metodológica essencial para:

  • Identificar desvios entre o que foi planeado e o que é efetivamente executado;
  • Garantir que os cuidados são baseados na evidência científica;
  • Promover uma cultura de aprendizagem colaborativa e melhoria contínua.

2. A Obrigatoriedade dos Standards da DGS

O Ministério da Saúde, através da Direção-Geral da Saúde (DGS), estabelece standards de certificação que são de cumprimento obrigatório.

Por exemplo, o Standard 05.12_01 obriga as instituições a cumprir as regras de higiene das mãos, o que inclui a observação direta. Quando um profissional recusa ser auditado, inviabiliza a capacidade da instituição em demonstrar conformidade perante os organismos reguladores e, acima de tudo, coloca em causa a segurança do doente.

3. O Dever Ético e a Gestão de Risco

Legalmente, o profissional de saúde não se pode recusar a ser auditado. Esta atividade faz parte do sistema de gestão de risco a que todas as instituições do Serviço Nacional de Saúde estão vinculadas.

Além disso:

  • Responsabilidade Profissional: Médicos e enfermeiros têm o dever ético de prestar cuidados seguros.
  • Verificação de Conformidade: A auditoria interna é o meio pelo qual o hospital garante que as funções definidas para cada posto de trabalho (Standard 01.04_01) estão a ser devidamente cumpridas.

4. Observação Direta e Privacidade

Uma dúvida frequente prende-se com a entrada em quartos ou gabinetes para observação direta (como na auditoria de manutenção de cateteres venosos).

Embora a privacidade e intimidade do doente devam ser sempre respeitadas (conforme o Standard 03.01_02), a entrada em áreas de prestação de cuidados para fins de auditoria é permitida e necessária para avaliar a prática real.

Conclusão: O Foco é o Coletivo

É importante reforçar que os resultados das auditorias são, regra geral, divulgados de forma agregada. O objetivo não é a penalização individual, mas sim a proteção de todos: do doente, que recebe melhores cuidados, e do profissional, que vê a sua prática normalizada e protegida por padrões de qualidade reconhecidos.

A segurança do doente não é um ato isolado, mas o resultado de uma vigilância constante e transparente.

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
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Fernando Barroso
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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia Mundial da Segurança do Doente 2026: Foco nas Doenças Não Transmissíveis

Na quinta-feira, 17 de setembro de 2026, celebra-se o sétimo Dia Mundial da Segurança do Doente. Esta data anual é um marco fundamental para a saúde global, unindo países e parceiros internacionais num esforço contínuo para reduzir danos evitáveis nos sistemas de saúde.

O Tema de 2026: Cuidados Seguros para Doenças Não Transmissíveis

Este ano, o foco central da campanha recai sobre um desafio crescente na saúde moderna: "Cuidados seguros para doenças não transmissíveis". O objetivo é garantir que os doentes que lidam com condições crónicas e de longa duração recebam tratamentos integrados e protegidos de riscos sistémicos.

Objetivos Estratégicos

A celebração deste dia em 2026 mantém os seus pilares fundamentais, procurando atingir resultados concretos à escala mundial:

  • Aumentar a consciencialização e o envolvimento do público: Colocar a segurança no centro das atenções de todos, desde os profissionais aos cidadãos.
  • Reforçar a compreensão global: Promover o conhecimento técnico e prático sobre o que torna os cuidados de saúde verdadeiramente seguros.
  • Solidariedade e ação concertada: Trabalhar para que todos os países e parceiros internacionais desenvolvam ações conjuntas e harmonizadas para melhorar a segurança dos cuidados prestados.

O Dia Mundial da Segurança do Doente de 2026 não é apenas uma data no calendário, mas um apelo à ação para que a segurança nos cuidados de doenças não transmissíveis seja uma realidade global e sustentável,.

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Fernando Barroso
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sábado, 17 de janeiro de 2026

Comunicação Digital na Saúde: Quando a Agilidade se Torna um Risco

 Comunicação Digital na Saúde: Quando a Agilidade se Torna um Risco

A comunicação eficaz entre equipas de saúde é um dos pilares fundamentais da segurança do doente, tendo as ferramentas de mensagens instantâneas revolucionado esta interação. No entanto, um estudo recente realizado com 3.239 médicos revela que o aumento desregrado do volume de mensagens está diretamente associado a um maior risco de erros, especificamente no envio de solicitações para o doente errado.

O IMPACTO DO VOLUME DE MENSAGENS

A investigação, que acompanhou profissionais em 14 hospitais, concluiu que aqueles que enviavam mais mensagens (os 25% no topo da lista) apresentavam uma probabilidade 10% superior de cometer erros de identificação do doente. Entre os grupos analisados, os médicos assistentes foram os mais afetados, com um risco de erro 20% mais elevado.

Este fenómeno explica-se por três fatores principais:

• O aumento substancial da carga cognitiva dos profissionais;

• A maior probabilidade de confusão na identificação dos doentes;

• A complexidade clínica dos casos, que exige uma coordenação mais intensa entre equipas.

OS PERIGOS DAS FERRAMENTAS NÃO-ESPECÍFICAS

Embora o uso de aplicações como o WhatsApp seja comum para ultrapassar barreiras geográficas e facilitar a resposta em situações de emergência, estas ferramentas não foram desenhadas para o contexto da saúde. Segundo Lucas Zambon, diretor científico do IBSP, a utilização destas plataformas digitais sem o devido controlo pode conduzir a erros de medicação, falhas na indicação de exames e problemas de priorização.

RECOMENDAÇÕES PARA UMA PRÁTICA SEGURA

Para mitigar estes riscos, os especialistas sugerem que os gestores hospitalares e as equipas adotem as seguintes medidas:

1. Monitorizar o tráfego de mensagens como um indicador de sobrecarga de trabalho.

2. Implementar protocolos rígidos de identificação, utilizando sempre o nome completo e o número do processo clínico em todas as interações.

3. Privilegiar soluções integradas no registo clínico eletrónico, que garantam a mobilidade da tecnologia, mas com barreiras de segurança que ajudem a erradicar erros de identificação.

A tecnologia deve ser uma aliada da segurança, mas a sua utilização exige consciência, protocolos estruturados e foco constante na proteção do doente.


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