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sábado, 5 de abril de 2025

Participei no III Congresso Gestão e Empreendedorismo para Profissionais de Saúde

 

Nos dias 04 e 05 de abril de 2025 participei no III Congresso Gestão e Empreendedorismo para Profissionais de Saúde, em Santarém.

Como empreendedor, não podia deixar de o fazer, e gostava de partilhar contigo algumas informações sobre este evento.

👉 A grande diferença é que este evento (já é o 2º a que assisto) não tem "nada" a ver com um congresso "tradicional" da área da saúde.

👉Não há "mesas temáticas".

👉O programa é "minimalista"

👀 O espaço é incrível

👉Em cada apresentação, apenas o palestrante está em palco.



👌
Não há "perguntas e respostas"

💪 Os horários são cumpridos com rigor.

Não, este não é um congresso tradicional da saúde. É um congresso em que se discute o negócio e estratégias para o implementar e potenciar. É um congresso que discute estratégias e soluções para ter lucro (sem vergonha) ao mesmo tempo que se presta um serviço com rigor e profissionalismo.

Nas instituições publicas de saúde temos muito a aprender com as estratégias e ferramentas do "atendimento do cliente" com a "imagem" da instituição, com a necessidade de uma melhor "comunicação" e com estratégias que facilitem a experiência do doente e a sua relação com os Serviços.

Quem sabe um dia...

Podes encontrar pequenos vídeos do congresso no meu canal do YouTube em www.youtube.com/@FernandoBarroso1972

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#umdiaserastuodoente
Fernando Barroso
https://fernandobarroso.gumroad.com/

domingo, 22 de setembro de 2024

Alerta - Relato difícil da perda de um filho (ou a Insensibilidade de alguns Profissionais de Saúde)


Nem todos os profissionais de Saúde, mas sempre um profissional de Saúde(*)

Em 48 horas tivemos a informação de que estava tudo bem com a nossa filha. De que afinal não estava. E agora que faríamos um feticídio, sem qualquer aviso ou preparação para tal.

Antes de mais: a minha profunda gratidão a todos os profissionais de saúde que cuidam dos seus doentes com eficiência, vocação, rigor e…empatia.

O título deste artigo prende-se precisamente pela, cada vez maior, escassez desta última característica.

Todos os dias somos bombardeados com várias notícias que nos fazem constatar o óbvio: os serviços de saúde em Portugal estão sobrecarregados. São listas de espera intermináveis, urgências a fechar, falta de recursos humanos. O sistema — por motivos variados — não funciona tão bem quanto devia.

As consequências são várias, mas um episódio recente fez-me “regressar ao passado” e voltar a lidar com um em particular: a total falta de empatia com os doentes.

Sim, é verdade que são milhares os doentes que passam por cada unidade de saúde diariamente. Cada um com os seus males e maleitas. E se essa maleita parece gravíssima ao doente, é “só mais uma” para quem o atende.

Segundo o Relatório de Saúde STADA 2023, que entrevistou 2.000 pessoas em Portugal, 74% da população portuguesa estava satisfeita com o serviço nacional de saúde em 2021. Este valor baixou para 53% em 2023. A tendência é continuar a descer.

Não farei distinção entre o serviço privado e o público pois, a meu ver, a linha que os separa é cada vez mais ténue.

Bem, vamos ao tal episódio. Uma história banal: uma amiga de longa data, nos seus 40 anos, decide que quer engravidar. Marca uma consulta para ver se está tudo bem com ela e com o seu companheiro.

O que não é banal nesta história: esta amiga já perdeu uma filha com uma doença genética raríssima. A mãe tem, portanto, este gene e, para saber se pode avançar ou não com uma gravidez, precisa de saber se o seu companheiro, que nunca teve filhos, também o é.

Feitos os exames (caros, por sinal), têm agora que aguardar 5 semanas pelos resultados. Findas as 5 semanas, não há resultados. A ansiedade começa a instalar-se. O laboratório ainda não os tem e ao telefone é dito que “não sei porque não temos os resultados. Conte com eles só daqui a 10 dias”.  Respiremos fundo. Atrasos acontecem.

Um breve resumo: foi feito o primeiro estudo genético e, devido aos resultados, a médica – sem informar a doente — pediu um segundo estudo. Ao telefone, ao perceberem a ansiedade da minha amiga com esta situação, alguém fez questão de dar a seguinte informação: “Foi mesmo necessário este segundo estudo. A médica depois explica…e vocês enquanto casal terão que tomar uma decisão”.

Calma, vamos com calma. Uma decisão? Que decisão? Que diz nesse estudo que os fará, enquanto casal, terem que tomar uma decisão?!

Não há respostas do outro lado, mas há nesta doente — que é uma mãe que já perdeu uma filha — um reviver do passado e um desespero que se instala. Será possível que terá que passar por esta situação novamente?

Em março de 2022, era eu a futura mãe em desespero. Ao fim de uma hora numa consulta de ecografia, sem o médico proferir uma palavra, é me dito que não está tudo bem e devo entregar com urgência o relatório da ecografia ao meu médico de família.

No mesmo momento, dirijo-me ao centro de saúde. O médico respondeu-me que, pelo que ele viu, estava tudo bem e era um manifesto exagero de quem tinha feito a ecografia. Só para não haver nenhum problema, iria pedir-me uma consulta para a Maternidade Alfredo da Costa.

Poderia dizer que senti alívio nesse momento, mas não é verdade. As dúvidas e a ansiedade de uma mãe de primeira viagem instalaram-se. Saí do centro de saúde e dirigi-me ao Hospital da Luz para fazer uma nova ecografia.

Expliquei a situação à médica e mostrei-lhe o relatório do seu colega. Vamos a nova ecografia. Demorou menos de 5 minutos para que esta médica confirmar que havia um problema. A bebé que carregava, tão amada e desejada, era incompatível com a vida.

Mas há menos de 2 horas atrás o médico de família tinha-me dito que estava tudo bem…

Várias voltas dadas, acabei com uma amniocentese marcada para daí a dois dias no hospital de Loures. Uma amniocentese é um exame algo arriscado, mas comum. Preparei-me para o mesmo com alguma descontração.

Dois dias depois, lá estávamos eu e o meu marido, no gabinete médico para o exame. O médico começa a descrever o procedimento e diz algo como “como sabem a bebé tem um problema e o feticídio funciona da seguinte forma…”.

Lembro-me de cruzar, incrédula, os olhos com o meu marido. De que estava o médico a falar? Eu ia apenas fazer uma amniocentese.

O médico, ao ver as nossas caras apercebe-se da situação e pergunta se não nos foi dito o que iríamos fazer. A nossa resposta foi que não. Não foi para aquilo que nos preparamos.

Em 48 horas tivemos a informação de que estava tudo bem com a nossa filha, de que afinal não estava e agora que faríamos um feticídio sem qualquer aviso ou preparação para tal. O meu marido pediu de imediato que eu recebesse apoio psicológico naquele momento. O médico respondeu que poderia solicitar, se ele considerava importante. Haveria dúvidas de que era importante?

Foi feito o que tinha que ser feito. Daí a dois dias fiz o parto desta bebé. Sozinha num quarto de hospital. Sim, sozinha. Sem enfermeiros, nem médicos pois estavam ocupados noutros quartos.

Comigo, com a bebé sem vida nos braços, uma enfermeira entrou disparada no quarto, tirou-ma e chamou uma colega que me deu uns papéis de autópsia para assinar.

Doei o corpo da menina à ciência. Já a empatia… ninguém pode doar.


O Texto é da autoria de Mónica Fernandes

(*) O texto original foi publicado no Jornal OBSERVADOR  a 17/09/2024 e está neste link: https://observador.pt/opiniao/nem-todos-os-profissionais-de-saude-mas-sempre-um-profissional-de-saude/ 

(No texto original, a palavra “paciente” foi substituída por “doente” para respeitar a Classificação Internacional para a Segurança Dos Doentes, e o espírito deste Blog)


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Fernando Barroso
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sábado, 16 de dezembro de 2023

O acesso do doente ao sistema de saúde é uma questão de segurança do doente


Esta semana uma cidadã ucraniana dirigiu-se à consulta externa para tentar agendar marcar uma consulta médica, ela  tinha pelo menos três questões de saúde que precisava de ver resolvidas

Esta cidadão já está em Portugal há cerca de 2 anos. Ela tem número do SNS mas não consegue acesso ao sistema.


Expliquei-lhe que um utente não pode dirigir-se à consulta externa de um hospital e simplesmente agendar uma consulta.

O acesso às consultas de especialidade no hospital ocorre essencialmente por referência do serviço de urgência ou por referência de um centro de saúde com base num pedido de consulta feito pelo médico de família. Expliquei isso o melhor que consegui.


Ela respondeu de forma muito calma o que já tinha feito até ali. 

Explicou que o apoio que tem tido em Portugal tem sido essencialmente conseguido no setor privado.

Explicou que já foi várias vezes ao seu Centro de Saúde mas que atualmente os profissionais - ela não disse quais os profissionais - que num primeiro momento até comunicavam com ela em inglês deixaram de comunicar e simplesmente dizem que não sabem falar inglês.


Esta pessoa estava a ficar desesperada, precisa de medicamentos por causa da sua situação de saúde, precisa de resolver outros assuntos e não consegue acesso ao sistema.


Por mais que eu tentasse pensar numa forma de ajudar, a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe que contactasse a linha de saúde do SNS (808242424).

Há uma opção para as pessoas que só falam inglês e que tentasse para que através daí houvesse a devida referenciação para o sistema com base nas suas necessidades.


Ela ainda me perguntou se poderia ir ao serviço de urgência?

Expliquei que provavelmente caso o fizesse, ser-lhe-ia atribuída uma pulseira com uma cor azul ou verde e mesmo assim correria o risco de quando conseguisse chegar à fala com o médico, deste também dizer que o assunto não era para um serviço de urgência e que teria de dirigir-se ao centro de saúde.

Mesmo sem a resposta que queria, a pessoa simplesmente agradeceu, tomou nota do número para onde deveria ligar e foi embora.


Fiquei a pensar como é que esta pessoa não consegue o acesso que pretende tendo todo o direito de o conseguir.


Somos muito rápidos a dizer que conseguimos falar outras línguas mas depois, na prática, não queremos colocar isso em prática. Existem formas de ultrapassar esta dificuldade quando o doente fala outra língua. Existem sistemas de apoio de tradução que podem e devem ser utilizados.


Mas muito provavelmente O que está por trás desta dificuldade de acesso não é isto

É o nosso julgamento do outro. É nós acharmos que temos um poder que queremos exercer e condicionar aquilo que é a resposta possível.

Decidimos quando não podemos decidir e decidimos errado. Não podemos impedir o acesso se ele é perfeitamente legal - como é este aparentemente o caso.

O facto de se tratar de uma pessoa de outra nacionalidade não nos deve fazer criar barreiras onde elas não devem existir.


Todos aqueles que trabalham na área da saúde percebem perfeitamente que há todos os dias tentativas de "dar volta" ao sistema. Não é isto que está aqui em causa. Trata-se apenas de uma pessoa que quer cuidados de saúde e que tem direito de os receber.


O facto de falar uma outra língua não deve ser impeditivo. É um desafio, é verdade, mas quando estamos a impedir o acesso estamos a impedir a prestação de cuidados de saúde que certamente a pessoa necessita e com isso estamos a pôr a segurança desta pessoa em risco.


Enquanto profissionais de saúde não temos o direito de o fazer. Pelo contrário, temos que fazer tudo para promover a segurança do doente, e isso implica permitir o acesso ao sistema, com maior ou menor dificuldade.

A responsabilidade dos profissionais na área da saúde é cumprir a lei, é cumprir as regras das boas práticas, é atuarmos de forma ética, é sermos atenciosos com os nossos utentes, porque é para isso que ali estamos.


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Fernando Barroso

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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Estamos a Forçar a Literacia aos nossos Doentes? #SD451


Tenho por hábito observar com alguns distanciamento o meu Serviço (Consulta Externa) para sentir como o processo está a decorrer e o que podemos melhorar na experiência do Doente.

Há cerca de 2 meses que a inovação está na utilização de quiosques automáticos de atendimento "que fazem tudo".

Efetivamente, fazem um excelente trabalho (especialmente quando funcionam de forma correta), sendo inegavelmente uma evolução no atendimento do Doente.

O problema é que muitos doentes que tenho observado, ouvido, acompanhado, simplesmente "não querem" usar o sistema.

E não é uma questão de baixa literacia em saúde ou literacia tecnológica.

O sistema não difere muito da forma como utilizamos um terminal multibanco ou mesmo um Smartphone.

Já vi e ouvi de tudo:

  • Eu nunca mexi nisto!
  • Onde é que se "toca"?
  • Ouço um doente a "aconselhar" outro; - Eu cá digo que não sei ler...
  • Um doente tenta a todo o custo inserir um Bilhete de Identidade no quiosque (explico com calma que não vai dar).
  • Chega ao quiosque, e sem ler nada do que está no ecrã, ou nas indicações escritas que se encontram próximo, coloca simplesmente o cartão do cidadão no quiosque.

Também devemos reconhecer que há doentes (pela sua patologia, capacidades cognitivas, etc.) que necessitam de apoio (isso é inegável), mas, para muitos outros, provávelmente não há estratégia de literacia que resulte. 

Quando o Doente não quer, não há sistema que funcione...


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Fernando Barroso

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