sábado, 4 de julho de 2026

Seguimento Pós-Hospitalar em Idosos: Os Desafios e Riscos na Passagem para os Cuidados de Saúde Primários

 

A transição do hospital para o domicílio é reconhecida como um momento de elevada vulnerabilidade para os idosos, que frequentemente apresentam quadros de multimorbilidade, fragilidade e polifarmácia. 

Um estudo retrospetivo recente, realizado no Reino Unido, analisou o processamento das notas de alta nos cuidados de saúde primários e revelou dados cruciais sobre a segurança do doente neste período crítico.

O impacto do regresso a casa

A investigação acompanhou 263 doentes com 65 ou mais anos e concluiu que a utilização de cuidados de saúde após a alta é muito elevada: cerca de 70,7% dos doentes necessitaram de aceder a cuidados pós-alta num período de 90 dias. Destes, 17,5% acabaram por ser readmitidos no hospital por motivos diretamente relacionados com a hospitalização anterior.

Erros e Danos: Uma realidade preocupante

Um dos pontos centrais do estudo foi a análise das "ações" solicitadas pelos hospitais aos médicos de família (como ajustes na medicação ou exames de seguimento). Os resultados apontam para falhas sistémicas:

  • Taxa de Erro: Em cada cinco doentes que necessitavam de uma ação clínica pós-alta, pelo menos um sofreu um erro de processamento (20,6%).
  • Danos para o Doente: Cerca de 4,4% dos doentes sofreram danos reais devido a estas falhas.
  • Readmissões Evitáveis: A maioria dos danos identificados resultou em readmissões hospitalares, sendo que muitos destes casos foram considerados evitáveis se tivessem sido geridos corretamente nos cuidados primários.

Quem são os doentes em maior risco?

O estudo identificou grupos específicos que apresentam uma vulnerabilidade muito superior:

  1. Doentes com Demência: Estes doentes têm uma probabilidade quase cinco vezes maior de sofrer erros no seguimento pós-alta e um risco significativamente mais elevado de sofrer danos reais.
  2. Doentes com Cuidador Registado: A presença de um cuidador no registo clínico também foi associada a um maior risco de erro, possivelmente refletindo a maior complexidade clínica destes indivíduos.
  3. Admissões de Urgência: Todos os danos registados no estudo ocorreram após admissões hospitalares de urgência, não se tendo verificado danos em casos de cirurgias programadas (eletivas).

A medicação no centro do problema

A maioria dos erros detetados (60%) estava relacionada com a medicação, particularmente com a falha em iniciar novos medicamentos prescritos pelo hospital nas receitas de continuação dos cuidados primários. Estes erros de reconciliação terapêutica podem levar a complicações graves, como infeções não tratadas ou controlo inadequado da dor.

O que mudou numa década?

Ao comparar estes dados com um estudo semelhante realizado há 10 anos, verificou-se que a taxa de erro na gestão das altas baixou de 45,5% para 21,5%. No entanto, apesar desta melhoria estatística, a taxa de danos graves para o doente não diminuiu de forma significativa, o que demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer na segurança destas transições.

Conclusão e Recomendações

Para melhorar a segurança do doente, o estudo sugere que as unidades de saúde devem rever urgentemente os seus processos de receção de informação hospitalar. É fundamental priorizar a revisão clínica de doentes de alto risco (especialmente aqueles com demência) e investir em ferramentas digitais e tempo clínico dedicado para garantir que nenhuma recomendação hospitalar se perca na transição para casa.

Fonte: https://bjgp.org/content/early/2026/06/30/BJGP.2025.0627 

UM DIA SERÁS TU O DOENTE!

#umdiaserastuodoente

Fernando Barroso

https://fernandobarroso.gumroad.com/

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