A transição do hospital para o domicílio é reconhecida como um momento de elevada vulnerabilidade para os idosos, que frequentemente apresentam quadros de multimorbilidade, fragilidade e polifarmácia.
Um estudo
retrospetivo recente, realizado no Reino Unido, analisou o processamento das
notas de alta nos cuidados de saúde primários e revelou dados cruciais sobre a
segurança do doente neste período crítico.
O impacto do regresso a casa
A investigação acompanhou 263 doentes com 65 ou
mais anos e concluiu que a utilização de cuidados de saúde após a alta é muito
elevada: cerca de 70,7% dos doentes necessitaram de aceder a cuidados
pós-alta num período de 90 dias. Destes, 17,5% acabaram por ser readmitidos no
hospital por motivos diretamente relacionados com a hospitalização anterior.
Erros e Danos: Uma realidade preocupante
Um dos pontos centrais do estudo foi a análise das
"ações" solicitadas pelos hospitais aos médicos de família (como
ajustes na medicação ou exames de seguimento). Os resultados apontam para
falhas sistémicas:
- Taxa
de Erro: Em cada cinco doentes que
necessitavam de uma ação clínica pós-alta, pelo menos um sofreu um erro de
processamento (20,6%).
- Danos
para o Doente: Cerca de 4,4% dos doentes
sofreram danos reais devido a estas falhas.
- Readmissões
Evitáveis: A maioria dos danos identificados
resultou em readmissões hospitalares, sendo que muitos destes casos foram
considerados evitáveis se tivessem sido geridos corretamente nos cuidados
primários.
Quem são os doentes em maior risco?
O estudo identificou grupos específicos que apresentam
uma vulnerabilidade muito superior:
- Doentes
com Demência: Estes doentes têm uma
probabilidade quase cinco vezes maior de sofrer erros no seguimento
pós-alta e um risco significativamente mais elevado de sofrer danos reais.
- Doentes
com Cuidador Registado: A presença de um
cuidador no registo clínico também foi associada a um maior risco de erro,
possivelmente refletindo a maior complexidade clínica destes indivíduos.
- Admissões
de Urgência: Todos os danos registados no estudo
ocorreram após admissões hospitalares de urgência, não se tendo verificado
danos em casos de cirurgias programadas (eletivas).
A medicação no centro do problema
A maioria dos erros detetados (60%) estava relacionada
com a medicação, particularmente com a falha em iniciar novos medicamentos
prescritos pelo hospital nas receitas de continuação dos cuidados primários.
Estes erros de reconciliação terapêutica podem levar a complicações graves,
como infeções não tratadas ou controlo inadequado da dor.
O que mudou numa década?
Ao comparar estes dados com um estudo semelhante
realizado há 10 anos, verificou-se que a taxa de erro na gestão das altas
baixou de 45,5% para 21,5%. No entanto, apesar desta melhoria estatística, a
taxa de danos graves para o doente não diminuiu de forma significativa,
o que demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer na segurança destas
transições.
Conclusão e Recomendações
Para melhorar a segurança do doente, o estudo sugere que as unidades de saúde devem rever urgentemente os seus processos de receção de informação hospitalar. É fundamental priorizar a revisão clínica de doentes de alto risco (especialmente aqueles com demência) e investir em ferramentas digitais e tempo clínico dedicado para garantir que nenhuma recomendação hospitalar se perca na transição para casa.
Fonte: https://bjgp.org/content/early/2026/06/30/BJGP.2025.0627
UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
#umdiaserastuodoente
Fernando Barroso

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