As Raízes Históricas e os
Pioneiros
Historicamente, a doença era
frequentemente vista como uma punição divina, e o cuidado envolvia a
intercessão de sacerdotes e o uso de poções. No final do século XIX, prevalecia
a ideia de que os erros eram falhas individuais raras, sem grande peso no resultado
final do tratamento. Figuras marcantes desafiaram esta visão:
● Florence
Nightingale: Durante a Guerra da Crimeia, demonstrou que
mudanças simples na higiene e alimentação dos soldados reduziam drasticamente a
mortalidade.
● Ignaz
Semmelweis: Em 1847, provou que a lavagem das mãos pelos
profissionais de saúde era essencial para prevenir a febre puerperal, embora a
sua recomendação tenha sido inicialmente rejeitada pelos pares.
● Ernest
Codman: Defendeu a "ideia do resultado final",
propondo que os hospitais deveriam acompanhar os seus resultados e tornar as
falhas públicas para aprender com elas, o que fundamentou a acreditação
hospitalar moderna.
A Ascensão da Medicina
Baseada na Evidência
No século XX, o foco
deslocou-se para a eficácia científica. Archie Cochrane tornou-se um
pioneiro ao defender a utilização do método científico para investigar a
eficiência dos tratamentos, levando à criação de revisões sistemáticas para
apoiar as decisões clínicas. Simultaneamente, John Wennberg identificou
variações injustificadas na prática médica entre diferentes regiões,
atribuindo-as mais ao comportamento do clínico do que às necessidades do doente.
O
Impacto dos Grandes Estudos e Relatórios
A medição da magnitude do
problema foi um passo crucial para a segurança do doente:
● Harvard
Medical Practice Study (1984): Revelou que 3,7% dos doentes
sofriam incidentes no hospital, a maioria dos quais evitáveis.
● To
Err is Human (IOM, 1999): Este relatório foi o grande ponto de
viragem, estimando que entre 44.000 a 98.000 mortes anuais nos EUA ocorriam
devido a erros evitáveis, alertando o mundo para os elevados custos sociais e
económicos.
● An
Organisation with a Memory (Reino Unido, 2000):
Reforçou a necessidade de passar de uma cultura de culpabilização individual
para uma cultura de aprendizagem sistémica.
O
Papel das Instituições Internacionais
A partir de 2004, a
segurança do doente tornou-se uma prioridade global:
● Organização
Mundial de Saúde (OMS): Criou a Aliança Mundial para a
Segurança do Doente e lançou desafios mundiais como a "Higienização
das Mãos" e "Cirurgia Segura Salva Vidas".
● Joint
Commission International (JCI): Em parceria com a OMS,
definiu nove "Soluções de Segurança do Doente" (2007) para
sistematizar medidas preventivas em áreas críticas, como a identificação do doente
e a conciliação medicamentosa.
● Institute
for Healthcare Improvement (IHI): Protagonizou as campanhas
das "100 mil vidas" e "5 milhões de vidas", implementando
intervenções práticas para impedir mortes desnecessárias.
Conclusão: O Imperativo da
Cultura de Segurança
O caso do Hospital de
Stafford, no Reino Unido, onde o foco nos objetivos financeiros ignorou
falhas graves na segurança, serve como um aviso histórico sobre os perigos de
descurar a qualidade assistencial. O caminho percorrido mostra que a segurança
do doente exige um esforço conjunto entre indivíduos e sistemas, sendo
hoje reconhecida como um elemento sine qua non para um cuidado de saúde
de excelência.
#umdiaserastuodoente
Fernando Barroso

Passado tantos anos e agora mais frequentemente com formações sobre a segurança do doente ainda se oculta o erro, não se partilham acontecimentos, com medo de represálias! Ainda há um caminho longo a percorrer! Mas felizmente já temos profissionais atentos e com espírito de mudança! Obrigada pelo teu trabalho!
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