sábado, 4 de julho de 2026

A Evolução Histórica da Segurança do Doente

 

As Raízes Históricas e os Pioneiros

Historicamente, a doença era frequentemente vista como uma punição divina, e o cuidado envolvia a intercessão de sacerdotes e o uso de poções. No final do século XIX, prevalecia a ideia de que os erros eram falhas individuais raras, sem grande peso no resultado final do tratamento. Figuras marcantes desafiaram esta visão:

     Florence Nightingale: Durante a Guerra da Crimeia, demonstrou que mudanças simples na higiene e alimentação dos soldados reduziam drasticamente a mortalidade.

     Ignaz Semmelweis: Em 1847, provou que a lavagem das mãos pelos profissionais de saúde era essencial para prevenir a febre puerperal, embora a sua recomendação tenha sido inicialmente rejeitada pelos pares.

     Ernest Codman: Defendeu a "ideia do resultado final", propondo que os hospitais deveriam acompanhar os seus resultados e tornar as falhas públicas para aprender com elas, o que fundamentou a acreditação hospitalar moderna.

 

A Ascensão da Medicina Baseada na Evidência

No século XX, o foco deslocou-se para a eficácia científica. Archie Cochrane tornou-se um pioneiro ao defender a utilização do método científico para investigar a eficiência dos tratamentos, levando à criação de revisões sistemáticas para apoiar as decisões clínicas. Simultaneamente, John Wennberg identificou variações injustificadas na prática médica entre diferentes regiões, atribuindo-as mais ao comportamento do clínico do que às necessidades do doente.


O Impacto dos Grandes Estudos e Relatórios

A medição da magnitude do problema foi um passo crucial para a segurança do doente:

     Harvard Medical Practice Study (1984): Revelou que 3,7% dos doentes sofriam incidentes no hospital, a maioria dos quais evitáveis.

     To Err is Human (IOM, 1999): Este relatório foi o grande ponto de viragem, estimando que entre 44.000 a 98.000 mortes anuais nos EUA ocorriam devido a erros evitáveis, alertando o mundo para os elevados custos sociais e económicos.

     An Organisation with a Memory (Reino Unido, 2000): Reforçou a necessidade de passar de uma cultura de culpabilização individual para uma cultura de aprendizagem sistémica.

 

O Papel das Instituições Internacionais

A partir de 2004, a segurança do doente tornou-se uma prioridade global:

     Organização Mundial de Saúde (OMS): Criou a Aliança Mundial para a Segurança do Doente e lançou desafios mundiais como a "Higienização das Mãos" e "Cirurgia Segura Salva Vidas".

     Joint Commission International (JCI): Em parceria com a OMS, definiu nove "Soluções de Segurança do Doente" (2007) para sistematizar medidas preventivas em áreas críticas, como a identificação do doente e a conciliação medicamentosa.

     Institute for Healthcare Improvement (IHI): Protagonizou as campanhas das "100 mil vidas" e "5 milhões de vidas", implementando intervenções práticas para impedir mortes desnecessárias.

 

Conclusão: O Imperativo da Cultura de Segurança

O caso do Hospital de Stafford, no Reino Unido, onde o foco nos objetivos financeiros ignorou falhas graves na segurança, serve como um aviso histórico sobre os perigos de descurar a qualidade assistencial. O caminho percorrido mostra que a segurança do doente exige um esforço conjunto entre indivíduos e sistemas, sendo hoje reconhecida como um elemento sine qua non para um cuidado de saúde de excelência.

 UM DIA SERÁS TU O DOENTE!

#umdiaserastuodoente

Fernando Barroso

https://fernandobarroso.gumroad.com/

1 comentário:

  1. Passado tantos anos e agora mais frequentemente com formações sobre a segurança do doente ainda se oculta o erro, não se partilham acontecimentos, com medo de represálias! Ainda há um caminho longo a percorrer! Mas felizmente já temos profissionais atentos e com espírito de mudança! Obrigada pelo teu trabalho!

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