Depois de assistir a mais umas Jornadas onde o “Controlo
de Infeção” era o principal tema condutor, dei por mim a reflectir sobre a
questão – Se estamos todos de acordo, porque é tão difícil "controlar"?
As infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS)
são, como o próprio nome indica, resultantes dos cuidados de saúde prestados, e
não a consequência “natural” do estado do doente. Se quiserem, por outras
palavras, são infecções que resultam do ambiente envolvente do doente (disponibilizado pela
Instituição de saúde) e principalmente das acções ou omissões dos profissionais
de saúde que cuidam do doente (a qualquer nível).
Ouvimos há anos palestras e estudos sobre a higiene das mãos, sobre os riscos da
utilização de técnicas invasivas
quando não são absolutamente necessárias (a algaliação vesical é um exemplo) ou
ainda sobre a necessidade de um ambiente
protector (a higiene e limpeza do ambiente hospitalar, dos equipamentos –
desde o estetoscópio que percorre todo o hospital ao dispositivo de avaliação
de tensão arterial que “é único no serviço” e que por isso tem de servir a
todos – e da higiene dos próprios profissionais de saúde – unhas de gel, batas
que são guardadas nas malas dos carros, fardas imundas, profissionais doentes que
vão trabalhar e prestar cuidados a quem está numa cama de hospital).
Sabemos há décadas que tratar uma infecção é mais dispendioso do que
preveni-la. Vejam-se por exemplo estes dois estudos
- The Direct Medical Costs of Healthcare-Associated Infections in U.S. Hospitals and the Benefits of Prevention - R. Douglas Scott II, March 2009
- UmEstudo Caso Sobre os Custos das Infecções no Centro Hospitalar Cova da Beira –Martins, Margarida e outros – Junho 2007
Para mudar, temos todos de o
querer fazer, e aqueles que não o querem devem ser responsabilizados por isso.
Então, como mudar? Algumas sugestões:
- Garantir a existência de recursos adequados. Há países onde a CCI é um Serviço completo. Em Portugal ainda se discute se teremos capacidade de implementar o Despacho n.º 2902/2013 e os seus subsequentes documentos orientadores, tendo à cabeça a dotação de recursos adequados.
- Tem de existir condições à concretização dentro de cada Instituição do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos. Para já não há!
- Devem existir objectivos claros relacionados com as taxas de IACS, ao nível institucional e por Serviços, inscritos nos contratos programa/planos de acção, e penalizar o seu incumprimento. Será que o recente Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2015-2020 (Publicado a 10-02-2015), vai sequer ser lido por todos os responsáveis, a todos os níveis das Instituições?
- Monitorizar o cumprimento das medidas de higienização das mãos (com auditorias internas e externas) ligando-as também ao sistema de avaliação individual dos profissionais.
Poderia aqui sugerir muitas mais, mas o actual quadro legislativo e os
poderes instituídos não o permitem.
Provavelmente amanhã vamos continuar a receber profissionais de saúde
nas instituições para quem as precauções básicas no controlo de infecção são um
mistério (Assistentes Operacionais, Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica, Médicos
recém formados a quem nunca foi ensinada a "técnica da lavagem das mãos” ou o que é um “isolamento
de contacto”. Aqui os Enfermeiros tem efectuado um esforço na sua formação base,
embora seja por demais evidente que esquecem rapidamente essas regras quando passam
de aluno a profissional.
Todos, todos sem excepção temos o dever moral e ético de fazer mais e
de fazer melhor (aqui me incluo também). Até lá, o Controlo de Infeção está sem "controlo".
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