sábado, 7 de novembro de 2026

Rácios de Auxiliares em Hemodiálise

Rácios de Auxiliares em Hemodiálise

Recentemente, recebi uma exposição de uma Enfermeira, uma profissional com quase 40 anos de experiência em enfermagem. Na sua mensagem, a Enf.ª descreve uma realidade alarmante vivenciada na sua unidade: enquanto a sala principal de hemodiálise dispõe de dotação direta, todo o apoio operacional a uma vasta gama de serviços anexos — que inclui salas de fluidoterapia e antibioterapia e.v., colheitas de sangue programadas e não programadas, colocação de cateteres, consultas de pré-diálise e acompanhamento de utentes em Diálise Peritoneal ou com peritonite — está dependente de um único auxiliar.

A afetação de apenas um profissional auxiliar para cobrir múltiplas salas e procedimentos em simultâneo é manifestamente insuficiente e coloca em risco direto a segurança dos doentes. Este alerta da linha da frente espelha uma lacuna estrutural do nosso sistema de saúde. É para dar resposta a esta inquietação e fundamentar a discussão com evidência científica que partilho a reflexão técnica que se segue.


Rácios de Auxiliares em Hemodiálise: O Elo Invisível que Ameaça a Segurança do Utente

A segurança dos cuidados em ambiente de hemodiálise depende do trabalho articulado de toda a equipa multiprofissional. Contudo, no setor da Nefrologia em Portugal, subsiste uma omissão regulamentar no que diz respeito aos Assistentes Operacionais (AO) e Técnicos Auxiliares de Saúde (TAS).

1. O Vazio Normativo em Portugal

Diferente do que acontece com as carreiras médica e de enfermagem, não existe em Portugal qualquer portaria ou despacho do Ministério da Saúde que determine rácios mínimos obrigatórios de AO/TAS para os serviços de Nefrologia ou unidades de hemodiálise.

Mesmo o diploma de licenciamento mais recente — a Portaria n.º 94/2024/1 — limita-se a referir abstratamente a exigência de "pessoal de apoio" necessário, sem nunca quantificar rácios por utente ou por posto de diálise. A única referência formal indireta surge na Norma de Dotações Seguras da Ordem dos Enfermeiros, que prevê uma dedução de 13,5% nas Horas de Cuidados de Enfermagem (HCN) pelo suporte prestado pelos auxiliares às tarefas operacionais e indiretas.

2. Prática Empírica vs. Padrões Internacionais

Perante a ausência de normas legais fixadas, a gestão hospitalar recorre a rácios empíricos. Na prática em regime ambulatório, adota-se habitualmente a referência orientadora de 1 TAS/AO para cada 6 a 8 utentes por turno (ou cerca de 1 auxiliar para cada 2 a 3 enfermeiros em sala).

No entanto, quando comparamos esta prática com referenciais regulamentares internacionais de referência — como o modelo do estado da Califórnia (EUA) —, verificamos que os padrões de segurança recomendam 1 técnico/auxiliar para cada 4 doentes e 1 enfermeiro para cada 12 doentes.

3. Evidência Científica: O Impacto Direto na Segurança do Doente

A escassez de pessoal auxiliar não se traduz apenas em cansaço das equipas; tem consequências clínicas diretas. A carência de TAS/AO força os enfermeiros a desviar a sua atenção para tarefas de limpeza pesada, desinfeção de monitores e logística de consumíveis, originando o fenómeno dos cuidados omitidos (missed care) e falhas na vigilância clínica.

Estudos científicos internacionais recentes corroboram a gravidade desta situação:

  • Mortalidade e Complicações de Acesso Vascular: Um estudo de coorte retrospetivo publicado por Nguyen et al. (2024) no JAMA Network Open, analisando 236 126 doentes em hemodiálise, concluiu que unidades com rácios superiores a 12,3 doentes por auxiliar (Patient Care Technician) apresentam um aumento de 7% na mortalidade global, 8% nos internamentos por sépsis e 15% nas hospitalizações por complicações do acesso vascular.
  • Reinternamentos e Burnout: Investigações conduzidas por Yoder, Xin et al. (2020) e Thomas-Hawkins et al. demonstram que a sobrecarga de trabalho e a falta de suporte auxiliar elevam os custos de cuidados omissos (como a monitorização de acessos e ensinos), aumentam as taxas de reinternamento hospitalar aos 30 dias e aceleram o burnout dos profissionais.

Conclusão

Garantir rácios adequados de Assistentes Operacionais e Técnicos Auxiliares de Saúde na hemodiálise não é uma questão secundária ou meramente administrativa: é uma exigência ética e de segurança clínica.

Ignorar a escassez destes profissionais é expor os utentes a riscos acrescidos de complicações evitáveis.

É urgente regulamentar dotações seguras que protejam a vida dos doentes e a sustentabilidade das equipas de saúde.


UM DIA SERÁS TU O DOENTE!

#umdiaserastuodoente

Fernando Barroso

https://fernandobarroso.gumroad.com/

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