Rácios de
Auxiliares em Hemodiálise
Recentemente, recebi uma exposição de uma Enfermeira, uma profissional com quase 40 anos de experiência em enfermagem. Na sua mensagem, a Enf.ª descreve uma realidade alarmante vivenciada na sua unidade: enquanto a sala principal de hemodiálise dispõe de dotação direta, todo o apoio operacional a uma vasta gama de serviços anexos — que inclui salas de fluidoterapia e antibioterapia e.v., colheitas de sangue programadas e não programadas, colocação de cateteres, consultas de pré-diálise e acompanhamento de utentes em Diálise Peritoneal ou com peritonite — está dependente de um único auxiliar.
A afetação de
apenas um profissional auxiliar para cobrir múltiplas salas e procedimentos em
simultâneo é manifestamente insuficiente e coloca em risco direto a segurança
dos doentes. Este alerta da linha da frente espelha uma lacuna estrutural do
nosso sistema de saúde. É para dar resposta a esta inquietação e fundamentar a
discussão com evidência científica que partilho a reflexão técnica que se
segue.
Rácios de
Auxiliares em Hemodiálise: O Elo Invisível que Ameaça a Segurança do Utente
A segurança
dos cuidados em ambiente de hemodiálise depende do trabalho articulado de toda
a equipa multiprofissional. Contudo, no setor da Nefrologia em Portugal,
subsiste uma omissão regulamentar no que diz respeito aos Assistentes
Operacionais (AO) e Técnicos Auxiliares de Saúde (TAS).
1. O Vazio
Normativo em Portugal
Diferente do
que acontece com as carreiras médica e de enfermagem, não existe em Portugal
qualquer portaria ou despacho do Ministério da Saúde que determine rácios
mínimos obrigatórios de AO/TAS para os serviços de Nefrologia ou unidades
de hemodiálise.
Mesmo o
diploma de licenciamento mais recente — a Portaria n.º 94/2024/1 —
limita-se a referir abstratamente a exigência de "pessoal de apoio"
necessário, sem nunca quantificar rácios por utente ou por posto de diálise. A
única referência formal indireta surge na Norma de Dotações Seguras da Ordem
dos Enfermeiros, que prevê uma dedução de 13,5% nas Horas de Cuidados de
Enfermagem (HCN) pelo suporte prestado pelos auxiliares às tarefas operacionais
e indiretas.
2. Prática
Empírica vs. Padrões Internacionais
Perante a
ausência de normas legais fixadas, a gestão hospitalar recorre a rácios
empíricos. Na prática em regime ambulatório, adota-se habitualmente a
referência orientadora de 1 TAS/AO para cada 6 a 8 utentes por turno (ou
cerca de 1 auxiliar para cada 2 a 3 enfermeiros em sala).
No entanto,
quando comparamos esta prática com referenciais regulamentares internacionais
de referência — como o modelo do estado da Califórnia (EUA) —, verificamos que
os padrões de segurança recomendam 1 técnico/auxiliar para cada 4 doentes
e 1 enfermeiro para cada 12 doentes.
3.
Evidência Científica: O Impacto Direto na Segurança do Doente
A escassez de
pessoal auxiliar não se traduz apenas em cansaço das equipas; tem consequências
clínicas diretas. A carência de TAS/AO força os enfermeiros a desviar a sua
atenção para tarefas de limpeza pesada, desinfeção de monitores e logística de
consumíveis, originando o fenómeno dos cuidados omitidos (missed care)
e falhas na vigilância clínica.
Estudos
científicos internacionais recentes corroboram a gravidade desta situação:
- Mortalidade e Complicações de
Acesso Vascular:
Um estudo de coorte retrospetivo publicado por Nguyen et al. (2024)
no JAMA Network Open, analisando 236 126 doentes em
hemodiálise, concluiu que unidades com rácios superiores a 12,3 doentes
por auxiliar (Patient Care Technician) apresentam um aumento de
7% na mortalidade global, 8% nos internamentos por sépsis e 15%
nas hospitalizações por complicações do acesso vascular.
- Reinternamentos e Burnout: Investigações conduzidas por Yoder, Xin et al. (2020) e Thomas-Hawkins et al. demonstram que a sobrecarga de trabalho e a falta de suporte auxiliar elevam os custos de cuidados omissos (como a monitorização de acessos e ensinos), aumentam as taxas de reinternamento hospitalar aos 30 dias e aceleram o burnout dos profissionais.
Conclusão
Garantir
rácios adequados de Assistentes Operacionais e Técnicos Auxiliares de Saúde na
hemodiálise não é uma questão secundária ou meramente administrativa: é uma
exigência ética e de segurança clínica.
Ignorar a
escassez destes profissionais é expor os utentes a riscos acrescidos de
complicações evitáveis.
É urgente regulamentar dotações seguras que protejam a vida dos doentes e a sustentabilidade das equipas de saúde.
UM DIA SERÁS TU O DOENTE!
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