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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Quando Amamentar envolve Risco para a Criança | Riscos Potenciais e Estratégias para os Ultrapassar

Quando Amamentar envolve Risco para a Criança | Riscos Potenciais e Estratégias para os Ultrapassar
Post de Convidado - Este texto é da autoria de Idalina Bordalo (Enfermeira Especialista de Saúde Infantil e Pediatria e Gestora de Risco no Centro Hospitalar Lisboa Central), a quem agradecemos a colaboração.

A amamentação é a forma natural de dar ao lactente os nutrientes que necessita para um crescimento e desenvolvimento saudáveis, razão pela qual a OMS recomenda a amamentação exclusiva até aos seis meses e complementada com outros alimentos pelo menos até aos dois anos.

Mas mesmo este acto tão natural não está isento de riscos para a criança. Compete aos profissionais envolvidos a adopção de medidas rigorosas de Segurança do Doente.

Para além da nutrição, a amamentação promove o bem-estar da criança e da mãe, reforça o sistema imunitário (protegendo a criança de doenças infeciosas) e otimiza o desenvolvimento físico, emocional e intelectual. Um estudo retrospetivo publicado no Lancet em 2015 (1), demonstrou que aos 30 anos de idade, os participantes que tinham sido amamentados por um ano ou mais tinham melhores resultados em testes de inteligência, escolaridade mais alta e melhor remuneração, que os que foram amamentados por períodos iguais ou inferiores a um mês. Apesar de toda a evidência, apenas 38% das crianças são amamentadas por um mínimo de 6meses (2).


Na base das baixas taxas de amamentação está o fraco suporte que é dado às mães trabalhadoras (horário protegido, flexibilidade de horário, trabalho à distância, local para expressão e conservação de leite materno durante o horário de trabalho, creche, etc.), mas também a pouca formação dos profissionais de saúde nesta matéria.

O internamento (da mãe ou da criança) continua a ser uma das causas para a interrupção/não estabelecimento da amamentação. Amamentar bebés e crianças internados promove o seu bem-estar (é uma estratégia não farmacológica de alívio da dor com vasta evidência científica), mas também reduz o risco e aumenta a segurança do doente.

Muitas vezes as fórmulas para lactentes são introduzidas por “excesso de cautela” (desconhecimento) quanto às razões que devem impedir a amamentação. Noutras situações chega a ser a mãe a administrar por biberão o seu próprio leite (materno), para que o balanço hídrico seja mais rigoroso, ou porque existe a crença (sem qualquer evidência) de que o bebé se cansa menos.

Qualquer uma das situações acima descritas expõe a criança ao risco:

Administração da fórmula errada (e potencial reação adversa), administração da dose errada ou pela via errada. Este último tipo de incidente é bastante conhecido pela ameaça que representa para a vida da criança. Alguns incidentes (mortais) levaram inclusivamente ao desenvolvimento de dispositivos para alimentação entérica não compatíveis com sistemas luer (os utilizados nos sistemas parentéricos).

No caso dos leites maternos por biberão existe o risco de erro de identificação, que expõe a criança a um fluido orgânico de outra mulher que não a sua mãe. Este incidente está descrito a nível nacional e internacional, existindo inclusivamente uma recomendação do CDC, sobre qual o procedimento a adotar, caso ocorra (3).

Os fatores de risco para este incidente são diversos:
  • Erro de identificação do leite - colocar a etiqueta errada ou preencher erradamente a etiqueta, utilização do número do berço como forma de identificar o doente (podendo haver troca durante o internamento), utilização de um único identificador;
  • Erro de identificação do doente – não verificação/confirmação ativa da identificação do doente antes de administrar/fornecer o leite, doentes com identificação parecida, criança sem pulseira de identificação (situação comum em grandes pré-termos);
  • Armazenamento – inexistência de um frigorífico específico para leites maternos, não individualização dos leites maternos em compartimento/contentor único para cada criança, corretamente identificado (com pelo menos dois identificadores);
  • Dispensa/transporte – Falha na confirmação da identificação da criança quando o leite é retirado do frigorífico, entrega no local errado;
  • Fatores Humanos – interrupções, treino insuficiente em procedimentos de identificação, carga de trabalho, iluminação/legibilidade, lapso, visão em túnel, enviesamento de confirmação.

As principais estratégias para a redução do risco são:
  • Manter os bebés junto das mães, sempre que possível;
  • (Re)Iniciar a amamentação o mais rapidamente possível;
  • Desenvolver, divulgar e aplicar procedimentos de identificação de doentes fiáveis, com pelo menos dois identificadores inequívocos;
  • Utilizar pelo menos dois meios de identificação;
  • Etiquetar o leite materno na presença da mãe, ou pela própria, após verificação ativa da etiqueta (e ter pelo menos dois identificadores inequívocos);
  • Envolver os pais/acompanhantes na segurança da criança, realizando a identificação ativa antes da administração do leite.

Quando ocorre um incidente deste tipo há ações que devem ser tomadas junto de ambas as famílias. Os pais da criança que tomou o leite errado, devem ser informados do erro. Caso se considere necessária a realização de teste de HIV ou outros (sendo o risco de transmissão muitíssimo baixo), a mãe dadora terá que dar o seu consentimento para a realização do teste e divulgação do resultado aos pais da criança que tomou o leite.

Caso o leite não tenha sido colhido no hospital (por exemplo em casa da mãe “dadora”), é adequado informar os pais da criança que tomou o leite de quais as condições de colheita, transporte e armazenamento até ao hospital – o que mais uma vez implica obter informação e consentimento da mãe “dadora”. Pode acontecer que não exista outra colheita para administrar ao bebé da mãe “dadora”, nem possibilidade de a obter em tempo útil (se por exemplo esta não estiver no hospital), o que pode implicar introduzir uma fórmula para lactente, que terá igualmente que ser comunicada aos pais dessa criança.

Mesmo que não haja qualquer erro, a limitação do acesso a um procedimento com evidente benefício para o doente (promover/otimizar aleitamento materno) é por si só, um incidente do tipo processo/procedimento clínico, não realizado quando indicado. Se analisássemos este incidente, facilmente chegaríamos à causa raiz: conhecimento/formação insuficiente.

É responsabilidade dos profissionais de saúde que atuam junto de crianças e mulheres em idade fértil adquirir as competências necessárias para a promoção do aleitamento materno, de modo que a meta que a OMS/UNICEF traçaram para 2025 – amamentação exclusiva nos primeiros 6 meses de vida para pelo menos 50% das crianças, possa ser uma realidade.
Idalina Bordalo
Enfermeira Especialista de Saúde Infantil e Pediatria
Gestora de Risco
Centro Hospitalar Lisboa Central
Bibliografia referida
(1) Victora, C. G. et al. “Association between breastfeeding and intelligence, educational attainment, and income at 30 years of age: a prospective birth cohort study from Brazil” Lancet, vol. 3, no. 4, April 2015, pp. e199 - e205.
(2)Anthony Lake (UNICEF Executive Director), Margaret Chan (WHO Director General):  2015 World Breastfeeding Week Message Breastfeeding and work - Let’s make it work!

(3) What to Do if an Infant or Child Is Mistakenly Fed Another Woman's Expressed Breast Milk, in: http://www.cdc.gov/breastfeeding/recommendations/other_mothers_milk.htm

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